Resenha
A história da arte e as imagens da Amazônia
Por Walter Pinto
Um manual que traça um panorama da arte na Amazônia, desde as primeiras imagens criadas por artistas europeus durante as viagens das Grandes Navegações até a criação livre dos artistas paraenses contemporâneos, de alguma forma também conectada à arte produzida em diferentes épocas. No livro A história da arte e as imagens da Amazônia, o historiador Aldrin Moura de Figueiredo oferece ao leitor um texto síntese sobre a criação artística na Amazônia, dos registros pioneiros dos artistas-viajantes que fixaram que registraram a região antes mesmo que ela se tornasse Amazônia, ao olhar de artistas contemporâneos, como Luiz Braga, premiado fotógrafo paraense.
O livro, com 64 páginas, foi publicado pela Valer Editora, de Manaus, como parte da Coleção Reflexões Amazônicas, que reúne textos imprescindíveis em suas áreas por oferecerem uma leitura sobre a região, produzida por seus próprios pesquisadores, ao mesmo tempo consistente e acessível a todos os leitores. A coleção oferece uma possibilidade de conhecimento da arte da e sobre a Amazônia, por meio de uma leitura rápida e fácil de transportar devido ao pequeno formato que lhe é característico.
Historiador, especialista em Antropologia Social, mestre e doutor em História pela Unicamp, professor da UFPA, Aldrin Figueiredo coordena o Grupo de Pesquisa em História Social da Arte (UFPA/CNPq). Ao lado de uma ampla produção historiográfica de temas variados, ele faz da arte na Amazônia o campo principal de sua produção científica. Tomando como referência o historiador da arte Aby Warburg (1866-1929), que desenvolveu o conceito de “Phatosformeln” – linhas de transmissão de imagens artísticas ao longo do tempo, espécie de inspiração de uma obra sobre outras –, Aldrin ressalta que o tema que trata no livro foi caro ao Renascimento, de vários modos e maneiras, como mito e cartografia da história.
Estabelecendo conexões entre o fazer artístico de épocas distintas, ele aponta relações entre as primeiras representações do rio Amazonas, por Diego Gutierrez, gravadas em Antuérpia, por volta de 1562, e a ancestralidade dos trançados dos indígenas Wayana, as imagens labirínticas do cosmo, com igual presença da Cobra-Grande, que circula entre o mapa europeu e a palha do abano e do tipiti dos indígenas da fronteira do Brasil. Essa mesma cobra que virou símbolo do Modernismo brasileiro, com destaque na obra de Raul Bopp. Segundo Aldrin, os historiadores da arte foram tomando conta de uma visão alargada da história, procurando compreender e analisar a manifestação da arte de grupos sociais tão diversos sob a perspectiva dos seus próprios valores culturais.
O autor informa ao leitor que Belém tem, hoje, uma proliferação de instituições, fundações, museus e galerias dedicados à análise e à catalogação de obras de arte e exposições destinadas ao público em geral. Há também vários acervos ainda carentes de estudos sistemáticos, mas estão passando pelo olhar dos historiadores, arquitetos, museólogos, antropólogos, artistas e muitos outros profissionais pelo menos há duas décadas. As duas maiores coleções de pintura, por exemplo, estão no Museu de Arte de Belém e no Museu Histórico do Estado do Pará, além do acervo sacro, “pouquíssimo estudado”, da Igreja de Santo Alexandre, na qual o visitante poderá ver, por exemplo, a Última Ceia, um óleo s/madeira, do século XVII, que remete à Última Ceia do alemão Peter Paul Rubens, de 1632.
O livro trata dos diversos repertórios artísticos, enveredando pela pintura, pela decoração, pelos retratos, pelas paisagens, pelas técnicas e pelas matérias-primas empregadas pelos artistas, como as tinturas de pariri ou cajuru do Pará, entre o róseo e o encarnado, “de largo uso da pajelança cabocla como remédio para inflamações no útero, anemias e doença dos olhos”, utilizada por Antonio Landi na sua pintura de quadratura.
O autor alude à conexão entre arte e ciência nas obras de um artista como Giuseppe Leone Righini, tomando a climatologia como referência, presente na tela Belém do Pará antes da chuva, aquarela de 1873, que remete à tela Santa Maria de Belém, desenho de Fernand Denis, de 1825, cujas águas revoltas parecem se referir ao cenário agitado da Cabanagem. Destaca também a grande transformação da arte na Amazônia do século XIX liderada pela Igreja, sob comando do bispo D. Antônio de Macedo Costa, que executou um programa iconológico, com a substituição das antigas imagens de roca e telas coloniais, tidas por arcaicas e incultas de devoção, por uma cultura do mármore e novas pinturas havidas como modernas ou por reproduções de telas canônicas da arte italiana. Um exemplo da cultura do mármore, o autor destaca o altar do escultor italiano Luca Carimini, o preferido do Papa Pio IX, transportado da Itália, por navio, para a Catedral da Sé, em 1871.
As telas e fotografias dos cardápios consumidos pelas elites amazônicas, assim como os alimentos populares e seus vendedores dão o testemunho da sociedade em suas diferentes camadas e costumes de época. Fidanza, o fotógrafo italiano que marcou época na passagem do XIX para o XX em Belém, por exemplo, fixou na história a menina tomando mingau, a preta velha vendedora de vasilhas e cuias, entre outras imagens.
Os pintores da Amazônia, por sinal, tiveram que enfrentar um desafio ao retratar a cor negra da pele em suas telas, desde que foi solicitado um quadro do intendente Cipriano Santos, falecido em 1923. Balthazar da Câmara, pintor vindo de Recife, depois de vários testes, pintou a tela que hoje faz parte da Galeria Municipal. Alguns anos depois, Antonieta dos Santos Feio deixou claro que aquela dificuldade já não existia mais, como demonstra a sua Vendedora de Cheiro, de 1947. Nos anos seguintes até os dias de hoje, os artistas continuaram representando a Amazônia, em diálogo com a história e cada vez mais de forma original, como nas telas de Emmanuel Nassar, que transformou a cotidiana bandeira do açaí em ícone artístico.
Serviço A História da arte e as imagens da Amazônia. Aldrin Moura de Figueiredo. Editora: Valer, 2025. Número de páginas: 64.
Edição: Iaci Gomes | Reprodução e arte CDC/Ascom
Beira do Rio edição 176 - Setembro a Dezembro
Redes Sociais