Entrevista com Denise Pires de Carvalho
"Não há mudança climática sem parceria entre países", afirma presidente da Capes
Por Edmê Gomes Paixão
O caminho entre a Universidade Federal do Pará e o aeroporto virou espaço de conversa, reflexão e futuro. Foi ali, no trajeto de despedida de Belém, que a presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Denise Carvalho, falou ao Jornal Beira do Rio sobre os rumos da pós-graduação brasileira e os desafios de fazer ciência em um país marcado por profundas desigualdades regionais.
Em visita à UFPA, a presidente da Capes acompanhou a realidade de uma universidade amazônica que produz ciência, forma pessoas e atua em um território estratégico para o Brasil e para o mundo. Em uma conversa franca, Denise Carvalho destacou políticas voltadas à interiorização da pós-graduação, à multicampia, à cooperação entre instituições e à construção de uma ciência mais solidária, colaborativa e internacional, além de alertar para a importância do financiamento contínuo da ciência como condição essencial para reduzir assimetrias, fortalecer a Amazônia e garantir o futuro do país.
A seguir, a íntegra da entrevista concedida ao Jornal Beira do Rio.
A Capes e a redução das desigualdades regionais
Hoje atuamos com mais de uma política visando ampliar a presença da pós-graduação nos lugares onde há ausência ou apenas um início dela, mas em que já há presença de professores doutores. Sabemos que os doutores são os professores da pós-graduação. E muitos desses professores, quando são contratados para atuar em novos campi onde não há pós-graduação, sentem-se desestimulados. Isso pode levar à evasão de docentes. Um doutor sozinho ou meia dúzia de doutores não fazem um curso de pós-graduação. Foi por causa disso que a Capes editou uma nova portaria chamada Portaria dos Programas Associativos. Essa é uma das políticas mais importantes no momento. Ela não depende de um investimento, mas, sim, de um rearranjo da pós-graduação.
A política multicampi da Capes
Tomemos como exemplo um curso de pós-graduação da UFPA em Belém. Ele pode agregar professores que estejam atuando em outros campi do interior. É a chamada multicampia, que é não só autorizada como também incentivada. No processo de avaliação dos programas de pós-graduação pela Capes, a multicampia e os programas associativos passaram a contar positivamente. Então, um programa associativo, isto é, um programa que tem o que chamamos de ação afirmativa, é um programa solidário e, por ser solidário, será mais bem avaliado. Um doutor que está no Campus de Altamira, por exemplo, atuando sozinho na sua área de conhecimento, quando associado a um programa de pós-graduação do Campus Belém, pode ministrar uma disciplina lá, em Altamira. Neste caso, o Campus Altamira passa a ser um local de oferta daquele programa da pós-graduação e aquele doutor não estará mais sozinho. O objetivo desse arranjo é possibilitar a permanência do professor doutor como forma de criação de massa crítica no futuro, naqueles campi em que a pós-graduação é incipiente ou inexistente. Esse professor vai atuar na graduação; seus alunos, após concluírem a graduação, vão cursar a pós-graduação e, depois, poderão fazer concurso para docente daquele mesmo campus. Assim se cumprirá um ciclo de formação pessoal próprio do lugar. Mas, para que tudo isso aconteça, é óbvio que as políticas para redução de assimetrias precisam vir juntas. Entre elas, a concessão de bolsas para esses programas que estão em áreas onde não há pós-graduação ainda consolidada. Isso precisa caminhar junto, à medida que os programas associativos aumentem. A novidade é que, agora, pode ser não somente dentro de uma mesma universidade, mas também entre universidades. Então, aquele professor do Campus Altamira pode, se preferir, em vez de se associar a uma pós-graduação do Campus Belém, se associar a um programa da Ufopa, no Baixo-Amazonas, ou mesmo a um da Ufam, no Amazonas. Esses programas associativos, na verdade, vão remodelar a pós-graduação brasileira. A nossa proposta multicampi tem vieses intrainstitucionais, interinstitucionais nacionais, intranacionais e internacionais. Ela permitirá que um professor do Peru, por exemplo, possa participar de um programa de pós-graduação aqui, da Amazônia brasileira.
Fortalecimento da internacionalização científica da Amazônia
Este século é o século da ciência baseada em temas, mais do que a ciência reducionista que caracterizou o século passado. Houve um reducionismo, que ainda permanece e foi importante para o desenvolvimento científico e tecnológico, mas, hoje, os trabalhos mais importantes e impactantes são aqueles colaborativos e internacionais, porque as questões que se colocam são internacionais. Não se consegue mitigar a mudança climática se não for feita uma parceria entre os diferentes países. Essa parceria é fundamental, mas é algo difícil, porque são muitos os interesses econômicos, a humanidade evoluiu e, muitas vezes, os interesses econômicos tendem a negar a ciência. São esses interesses, predominantemente econômicos, que podem levar à destruição do planeta. Eu costumo dizer que o homo sapiens não é nada sapiens, porque ele vai ser a espécie que se autodestruirá mais rapidamente. Toda espécie tende à extinção. Nós vamos nos autoextinguir e não há nada de sapiens nisso. Há muitos países que conseguem alcançar um desenvolvimento social e econômico mitigando os efeitos antropogênicos, estabelecendo sociedades que se desenvolvem de maneira mais solidária, igualitária, sem que haja a perpetuação da pobreza, como acontece em alguns países nórdicos. Mas o que vemos é que a concentração de riqueza, além de perpetuar a pobreza, destrói o meio ambiente. Na verdade, este é um projeto de destruição real do planeta. Então, não há saída fora da ciência, do conhecimento. Eu penso que, no Brasil, o conhecimento científico caminhou bem nos últimos 60 anos, mas precisa ganhar escala e velocidade, porque o mundo evoluiu.
Qualificação docente e transformação da sociedade
A Capes continua fazendo este trabalho, que é fundamental, o de formação de pessoal qualificado. O que significa isso? A formação de mestres e doutores, professores qualificados. Fazendo isso, a Capes contribui com a transformação da sociedade. Se os professores da educação básica forem mais qualificados, a educação básica vai ser melhor. A educação superior no Brasil é reconhecida no mundo todo por conta da qualidade dos professores e dos técnicos que trabalham nas universidades, nos institutos, nesses ambientes acadêmicos. Eles foram muito bem formados também por causa da atuação da Capes. Em 60 anos, a gente fez isso. Não havia doutores formados no Brasil. A gente, hoje, já é o décimo terceiro país em produção de conhecimento.
Desafios para a próxima década
O desenvolvimento do Brasil depende de financiamento da ciência. É preciso reduzir as assimetrias. Não adianta concentrar o financiamento apenas onde o desenvolvimento está consolidado. Precisamos olhar para os locais menos desenvolvidos. Neste sentido, programas de partilhamento de excelência precisam ser financiados também. Então, são dois movimentos, a manutenção do que existe, para que eles não percam a qualidade; e a expansão de um sistema altamente produtivo, capaz e de nível internacional. Não tem como fazermos isso sem financiamento. Então, a gente não pode concentrar os recursos só em quem já tem excelência. Temos que fazer com que o outro se torne excelente. Para isso acontecer, não há outra saída a não ser por meio de financiamento.
Edição: Iaci Gomes | Fotografia: Acervo pessoal
Beira do Rio edição 176 - Setembro a Dezembro
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