Intoxicação por mercúrio gera preocupação
Pesquisa revela expressiva subnotificação na Amazônia
Por Gabriela Cardoso
Amanda Lopes Araújo, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Farmacologia e Bioquímica da UFPA (PPGFARMABIO), e a sua professora orientadora, Maria Elena Crespo López, têm dedicado as suas trajetórias na pesquisa ao estudo dos impactos socioambientais do mercúrio. Elas são as primeiras autoras do artigo “Environmental pollution challenges public health surveillance: the case of mercury exposure and intoxication in Brazil”, cujo principal objetivo foi avaliar o cenário das notificações de intoxicação por mercúrio no Brasil.
Para realizá-lo, as pesquisadoras precisaram analisar centenas de fichas fornecidas pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), uma rede informatizada vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS) que reúne números de infecções e agravos notificados por enfermeiros, médicos e demais profissionais da saúde em todo o Brasil. “Fizemos uma busca ativa de quais eram os casos que estavam relacionados ao mercúrio e analisamos milhões de dados, desde 2007 até 2022. Foram dois pesquisadores trabalhando de forma independente”, conta Amanda Araújo. Os resultados foram preocupantes: segundo elas, há uma expressiva subnotificação de casos, sobretudo na região amazônica.
“Pescando” dados
Mesmo que os profissionais da saúde sejam obrigados, legalmente, a notificar casos de intoxicação por mercúrio, ainda não há uma categoria específica para esse tipo de questão no Sinan. Hoje, todas as notificações dessa natureza são adicionadas às fichas de “intoxicação exógena”, que podem ser quaisquer substâncias químicas, desde fármacos até agrotóxicos. As pesquisadoras, então, precisaram procurar nas fichas já preenchidas desta categoria algum apontamento do mercúrio como agente tóxico, ou seja, como princípio dos sintomas que o paciente estava sentindo quando a notificação foi realizada. Durante a busca, foram utilizadas várias palavras-chave, como mercúrio, amálgama, azougue, bateria, Hg, lâmpada, pilha e outras.
O problema da subnotificação logo foi identificado. Conforme os dados mais recentes divulgados pelo Sinan, nos últimos dezesseis anos, apenas 668 casos de exposição ou intoxicação por mercúrio foram registrados em todo o país, um número muito baixo para uma população de mais de 200 milhões de habitantes e com o nível de emissões do Brasil, sobretudo quando a realidade apontada por estudos recentes, corroborados pela World Wide Fund For Nature (WWF) e citados na pesquisa, mostra a Amazônia como local onde se originam cerca de 80% de todas as emissões de mercúrio da América do Sul.
Para quem trabalha acompanhando diretamente povos contaminados pelo mercúrio, o “apagão” de dados parece ainda maior. “Nós trabalhamos com populações ribeirinhas do Tapajós e de Tucuruí. Temos, aproximadamente, 1.000 participantes, e todos estão expostos ao mercúrio, alguns já intoxicados. Esses casos não estão no sistema. Além de ter a subnotificação, esses dados também são extremamente desatualizados. Existem dados de cinco anos atrás que ainda estão entrando no sistema”, aponta Amanda.
As populações mais afetadas
No garimpo ilegal, o mercúrio é lançado na natureza quando transformado em vapor, quando os garimpeiros aquecem o metal líquido para separá-lo do ouro. A partir daí, o mercúrio gasoso passa a interagir com o ambiente e é capaz de adquirir formas ainda mais tóxicas, como o metilmercúrio, que se acumula em animais. Nesse ciclo tóxico, seres aquáticos como peixes, algas, tracajás, caranguejos e camarões, todos alimentos basilares para a dieta das populações tradicionais amazônicas, são os primeiros contaminados.
“Já que ele está exposto a altas concentrações daquele metal, a exposição do garimpeiro é aguda. Por isso começamos a ver os sintomas dele de forma mais imediata. Os primeiros são os neurológicos e os respiratórios. Já a população tradicional que come o peixe contaminado sofre uma exposição crônica, o que significa que os sintomas vão aparecendo de uma forma um pouco mais discreta e a longo prazo”, explica Amanda Araújo.
Em 2022, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Instituto Socioambiental (ISA), do Instituto Evandro Chagas e da Universidade Federal de Roraima (UFRR) analisaram pescados coletados em três pontos da Bacia do Rio Branco, localizados na Terra Indígena Yanomami, e, segundo as análises, a contaminação por mercúrio era tão alta que não havia mais um nível seguro para consumo das espécies. Já em 2019, um estudo da Fiocruz com o povo Munduruku do rio Tapajós, no Pará, revelou que, de 200 indivíduos, seis, em cada dez participantes, apresentavam níveis de mercúrio acima dos limites estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No total, foram 196 indígenas contaminados pelo metal apenas nesse episódio, cujas intoxicações só foram notificadas, oficialmente, quatro anos depois.
Caminhos possíveis
Para Amanda Araújo, a subnotificação de casos acontece “de ponta a ponta”. Isto é, a lista de responsáveis engloba não só o órgão que elabora e recolhe as fichas como também os profissionais da saúde responsáveis por preenchê-las, principalmente em um contexto no qual a maioria deles não tem uma formação sobre o ciclo do mercúrio na biosfera e os seus efeitos no corpo-humano.
“Geralmente, a notificação oficial ocorre em cima de sintomas neurológicos, porque são os mais investigados. Mas o mercúrio não tem efeitos tóxicos associados somente ao sistema nervoso. Ele também afeta o sistema cardiovascular, o sistema renal, o sistema respiratório, e esses outros sintomas vão sendo associados a outros fatores que não o metal. Se o profissional de saúde que atendeu àquele paciente não relaciona o caso com o mercúrio, não tem como ir para a ficha do Sinan. Então o problema começa ali, na triagem dos pacientes”, expõe a bióloga.
Por isso, além da criação de uma ficha específica para os casos de intoxicação por mercúrio e a elaboração de um sistema informatizado melhor, Amanda enfatiza a importância de implementar políticas que aproximem os profissionais da saúde da realidade vivenciada pelas populações: “Sempre falamos sobre a capacitação continuada dos profissionais. É preciso criar mecanismos para o biomonitoramento desse metal na Amazônia, proporcionar para as unidades notificadoras melhor infraestrutura e fazer ações integradas que envolvam a sociedade na tomada de decisões também, como criar materiais educativos e adaptá-los para diferentes comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas.”
A bióloga acrescenta, ainda, que mudar o quadro de subnotificação é urgente, na medida em que ele influencia diretamente a distribuição de verbas públicas para combater agravos na Região Norte. “Se eu não estou notificando os casos de intoxicação por mercúrio na Amazônia, é como se eu não tivesse esse problema aqui. Tudo isso acaba impactando a tomada de decisões e a distribuição de verbas para o enfrentamento do problema”, conclui.
Sobre a pesquisa - O artigo “Environmental pollution challenges public health surveillance: the case of mercury exposure and intoxication in Brazil” foi publicado no Periódico The Lancet Regional Health - Americas. Amanda Lopes Araújo, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Farmacologia e Bioquímica da UFPA (PPG Farmabio) e a professora Maria Elena Crespo López assinam a publicação como primeiras autoras.
Edição: Iaci Gomes | Fotografia: Acervo da Pesquisa
Beira do Rio edição 176 - Setembro a Dezembro
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