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Entrevista: “Já é possível produzir sem desmatar”

Escrito por Beira do Rio | Publicado: Sexta, 29 de Março de 2019, 13h47 | Última atualização em Sexta, 29 de Março de 2019, 15h28 | Acessos: 1732

Leandro Juen: novo membro da Academia Brasileira de Ciências

Leandro Juen
imagem sem descrição.

Por Walter Pinto Foto Alexandre de Moraes

Em momento especialmente delicado em que a pesquisa e o ensino no Brasil vêm sendo tão contestados, a indicação para membro filiado da Academia Brasileira de Ciências foi recebida pelo biólogo Leandro Juen de forma prazerosa e gratificante. No período 2019 – 2023, ele representará a Região Norte na entidade, que tem como objetivo promover a ciência de qualidade, visando dar subsídios científicos à formulação de políticas públicas no País.

Professor do Instituto de Ciências Biológicas da UFPA e dos Programas de Pós-Graduação em Ecologia (PPGEco), Zoologia (PPGZool) e Ecologia e Pesca (PPGEAP), Juen acredita que a indicação é um reconhecimento por todo o trabalho de pesquisa e ensino que o grupo de biodiversidade da UFPA vem realizando ao longo de anos. Entende que se trata de uma oportunidade adicional para pautas importantes da Região Norte serem discutidas dentro da sociedade. Leandro Juen nasceu no Paraná, fez graduação em Mato Grosso, mestrado em Minas Gerais e doutorado em Goiás, nas áreas de Entomologia, Ecologia e Evolução. Nesta entrevista, ele destaca a grande contribuição que os programas de pós-graduação da Região Norte têm dado na formação de pesquisadores qualificados à condução de estudos sobre a biodiversidade.

Amazônia e riscos ambientais

Um dos grandes problemas da Amazônia, localmente, é a baixa resiliência dos seus ecossistemas. Além disso, a fertilidade do solo da Amazônia é sustentada pela ciclagem da matéria orgânica que cai, constantemente, no solo, proveniente de folhas e troncos das próprias árvores. Quando retiramos a floresta para atividades antrópicas, como pecuária e agricultura, esse ciclo é interrompido, e a pequena parte fértil é rapidamente consumida, tornando o solo pobre em nutrientes, em pouquíssimo tempo. Nesses locais desmatados, observamos que, quando a fertilidade do solo diminui e a produção/eficiência também decresce, a área é abandonada e outra área é desmatada para a nova atividade. Não há interesse em melhorar o solo e continuar naquele local, o desmatamento continua acontecendo mesmo sabendo que o tempo de uso dessa nova área será bastante efêmero.

Em virtude dessas características, a Amazônia, apesar de suas dimensões, corre mais riscos quando comparada a outros biomas, uma vez que ela é totalmente dependente de sua biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos que asseguram o funcionamento do bioma. A conservação desse bioma não deve ser uma prioridade regional, pois os impactos sobre a Amazônia não têm uma escala somente local, mas continental. Isso porque, além do que reportamos acima, com o desmatamento da Amazônia, também teremos alterações nos regimes de chuvas, e isso influenciará os rios voadores, que são responsáveis por parte das chuvas que caem no Sudeste e Sul do Brasil e da América Latina.

Produção de alimentos e biodiversidade

A população mundial continua aumentando e, com ela, a demanda por alimentos. Porém essa produção precisa ser realizada de modo sustentável, para não colocar em risco a sobrevivência humana, logo a produção precisa ocorrer com inovações tecnológicas, respeitando a legislação ambiental. O Brasil já detém tecnologias eficientes para continuarmos produzindo, ou aumentarmos a produção, sem precisar intensificar o desmatamento ou destruir ambientes naturais. Adicionado a isso, já temos trabalhos científicos mostrando que a produção agrícola é maior em áreas em que se conserva a biodiversidade, uma vez que, nas áreas de remanescentes florestais, é possível a conservação dos polinizadores e de inimigos naturais de pragas das lavouras. Isso levaria a uma menor necessidade de agrotóxicos para a eliminação das pragas, em virtude da conservação dos serviços ecossistêmicos.

Para compatibilizar essas duas práticas, são necessárias as políticas públicas que visem implementar medidas que favoreçam práticas amigáveis à biodiversidade e à produção. Junto a isso, é importante investir em educação e tecnologia para que trabalhem juntas, pensando no bem social. Já individualmente, podemos exercer nosso poder de pressão, consumindo, preferencialmente, produtos de empresas que respeitam a legislação ambiental e adotam boas práticas ambientais.

Por último, vale ressaltar que manter a floresta amazônica conservada, muitas vezes, é mais lucrativo do que aumentar as áreas de pecuária e agricultura. Isso ocorre em virtude do potencial econômico que tem a sua biodiversidade, possibilitando o desenvolvimento de novos medicamentos, alimentos, cosméticos e patentes para o País e, com isso, aquecendo a economia brasileira e melhorando a qualidade de vida da população que vive nesse local.

Espécies não conhecidas

Infelizmente, nossa capacidade de gerar conhecimento da biodiversidade é bem menor do que a velocidade da alteração e da degradação ambiental e, em virtude disso, muitas espécies são extintas até mesmo antes do conhecimento de sua existência pela ciência. É muito comum encontrar trabalhos sobre descobrimento de novas espécies para qualquer grupo biológico. Por exemplo, não faz muitos anos que uma nova espécie de boto foi descoberta no Rio Araguaia. Se imaginarmos que isso ocorre em um organismo como um vertebrado, que, em geral, são os mais estudados e a probabilidade de encontro é grande, imagine para organismos pequenos ou microscópicos, como os insetos e as algas, ou seja, temos muito ainda para descobrir.

Para vários grupos existentes, as estimativas do número de espécies que faltam ser descritas são muito elevadas. Como exemplo, a ordem Ephemeroptera de insetos aquáticos, de cujo real número de espécies existentes, somente conhecemos 10%. No entanto o problema não é apenas detectar a nova espécie, vai além disso. Ao perder seu registro, perdemos também a informação de sua distribuição e, consequentemente, dos fatores ambientais que afetam a presença ou a ausência da espécie em determinado local. Isso é muito preocupante. Com base nessas informações, cientistas e tomadores de decisão no nosso país criam estratégias para a preservação da biodiversidade e utilizam-nas para decidir qual é um bom local para a implementação de uma Unidade de Conservação e, assim, conseguirem conservar um maior número de espécies possível. Sem sombra de dúvida, esse cenário, apesar de desesperador, só não é pior em virtude da grande contribuição que os programas de pós-graduação da Região Norte têm dado na formação de pesquisadores qualificados para conduzir estudos nessas áreas, bem como no registro da biodiversidade.

Mudanças climáticas

Entre os pesquisadores é cada vez maior o consenso de que as alterações climáticas, ao longo da história evolutiva, tiveram grande importância sobre o padrão de diversidade que temos hoje. No entanto a velocidade dessas mudanças climáticas, atualmente, é bem maior do que as que ocorreram no passado e, consequentemente, os impactos são ainda maiores. Como forma de resposta, algumas espécies podem ampliar suas áreas de distribuição, bem como deslocar-se para áreas mais favoráveis, enquanto outras podem ter uma redução de suas áreas de distribuição, aumentando, assim, o risco de extinção em razão dos efeitos genéticos deletérios provocados pela redução e fragmentação da população. Com isso, corremos um sério risco de que as unidades de conservação existentes hoje podem não ser suficientes para a conservação da biodiversidade, em virtude de a probabilidade da distribuição das espécies mudar no futuro.

Além disso, temos o efeito direto das mudanças nas espécies. Alguns estudos já mostram que o aumento de poucos graus na temperatura da água dos riachos pode levar a uma diminuição do tamanho dos peixes, ou até mesmo de seu tempo de vida. Na Amazônia, deparamo-nos com variações climáticas, como o El Nino (que resulta do enfraquecimento dos ventos alísios e do aumento da temperatura do pacífico), que tem levado à mortalidade de muitos grupos. A mortalidade de algumas espécies afeta a composição de espécies daquele local e o funcionamento do ecossistema como um todo. Atualmente, estamos trabalhando em um projeto para modelar a distribuição de espécies de diferentes grupos com o objetivo de analisar a vulnerabilidade destes diante das mudanças climáticas. Os resultados preliminares apontam que os impactos previstos para a biodiversidade também podem ter consequências bastante negativas até mesmo para a produção agrícola.

Ed.148 - Abril e Maio de 2019

Comentários  

0 #1 Simoni Queiroz Meir 19-04-2019 23:42
Parabéns pelo belíssimo trabalho!
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