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Resenha

Publicado: Terça, 28 de Setembro de 2021, 19h08 | Última atualização em Quarta, 29 de Setembro de 2021, 15h59 | Acessos: 592

Saburo: imigrantes japoneses na Amazônia

Por Walter Pinto Foto Reprodução

História, memórias, emoções e afetos, planos referenciais apresentados por meio de linguagens verbal e não verbal da história em quadrinhos. Esse pode ser um resumo esquemático de Saburo, a HQ de Ricardo Harada Ono, produzido como parte da sua tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Artes, da UFPA. A tese, curiosamente econômica no título em um universo acadêmico de nomes geralmente longos, é composta por dois volumes. O volume I é constituído pelo objeto-arte em si, a HQ, enquanto o volume II apresenta um memorial sobre o modo de operação do artista e os conceitos advindos da interseção de gêneros e sentimentos que compõem a narrativa.

A HQ de Ono é, provavelmente, uma das propostas mais originais de apresentação de trabalho acadêmico, considerando o formato tradicional das teses que espelham a rigidez das normas técnicas. No volume I – é dele que trataremos nesta resenha -, Ono empregou seu conhecimento sobre histórias em quadrinhos e o talento como artista para produzir um documento de valor histórico sobre o processo de emigração dos japoneses para o Brasil na década de 1920. No entanto, diferentemente das narrativas que partem das estratégias oficiais de atração de mão de obra estrangeira para o Brasil, entre as quais a oferta de emprego e terras, ele parte da motivação dos japoneses para empreenderem a longa travessia, com base na história da sua própria família.

O personagem central da história é Saburo Ono, avô do autor e terceiro filho de uma família de seis irmãos. O pai era proprietário de um hospital na cidade de Hakata. Em uma sociedade que reserva apenas ao primogênito o direito de herança, Saburo, aos 17 anos, deixou o conforto do lar para estudar técnicas agrícolas em Tóquio. Um ano depois, ele embarcou no porto de Yokohama em direção ao Amazonas, onde o governo local promovia a formação de colônias agrícolas. O jovem Saburo passou a morar em assentamento nas terras concedidas pelo governo ao deputado Tsukasa Uyetsuka, uma enorme concessão equivalente a um milhão de campos de futebol.

Começam, então, as aventuras e desventuras do jovem Saburo numa terra desconhecida. Não havia os gorilas que os filmes de Tarzan mostravam em Tóquio. Os gorilas eram outros: os fazendeiros que maltratavam os imigrantes desde a chegada dos primeiros, em 1908, acostumados a lidar de forma violenta com a mão de obra escrava.

A HQ de Ricardo Ono revela um pouco da rivalidade entre brasileiros e japoneses, inclusive quando nasciam crianças com traços orientais, filhos de casais brasileiros. Para evitar tais constrangimentos, os imigrantes passaram a casar a distância com jovens japonesas escolhidas por seus pais, depois embarcadas para o Brasil. Aqui, elas cuidavam da casa e amenizavam o estranhamento em reuniões sociais e festivas com outras mulheres no Instituto Amazônia, fundado pelo deputado Uyetsuka, que tinha por objetivo preservar a cultura e as tradições nipônicas.

No Amazonas, os imigrantes japoneses introduziram novas técnicas agrícolas, cultivaram guaraná, feijão e arroz, realizaram o melhoramento da juta com sementes trazidas da Ásia. Saburo Ono introduziu o caratê no Amazonas, durante o período da Segunda Guerra, após sair da prisão como parte da perseguição vivida por japoneses, italianos e alemães.

Nos dois últimos capítulos, o autor trata da trajetória dos descendentes. Urana Harada e Shigeyoshi Ono, seus pais, conheceram-se em Belém. A mãe estudou em Santarém, antes de vir para Belém, tendo sido aprovada em terceiro lugar no vestibular da UFPA. Na época, residia na Associação Nipo-Brasileira, local em que conheceu Shigeyoshi. Ele, por seu turno, havia estudado em Parintins e Manaus. Ao chegar a Belém, sem dinheiro e sem residência, foi morar na garagem náutica do Clube do Remo, tornou-se remador, mas com a obrigação de zelar pela sede.

Entre 2003 e 2007, Shigeyoshi foi presidente da Associação Nipo-Brasileira. Em 2014, o casal viajou para o Japão, onde o pai de Ricardo foi condecorado com a medalha da Ordem do Sol Nascente. No epílogo de Saburo, o autor mostra, em 29 páginas, seu compromisso de dialogar com a história, apresentando dados, imagens e informações que serviram de fonte à reconstrução da saga da família Ono na Amazônia.

Serviço: Saburo, HQ, 135 páginas coloridas, tamanho 26 x 17 centímetros. Editora PPGArtes. Acesso gratuito no link https://drive.google.com/file/d/107CXLUzYXqJbh5x2t3ChbCdMIYS2TR8v/view?usp=sharing
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Beira do Rio edição 160

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