Colorido bioindicador
O que a floração dos ipês pode dizer sobre atuais condições ambientais?
Por Karina Moraes
Se você caminha pelas ruas de Belém, já deve ter observado que alguns cantos da cidade estão ganhando um novo colorido. Em tons de rosa, roxo e amarelo, entre outras cores, as flores dos ipês trazem uma beleza única à paisagem urbana, além de representarem um papel ecológico fundamental, especialmente para seus polinizadores, e por serem fonte de alimento e abrigo para uma fauna diversa.
Em geral, a floração dos ipês ocorre entre julho e setembro, mas, dependendo das espécies, do ano e das condições em que estão florescendo, esse processo pode se adiantar em alguns dias, semanas ou até meses.
Para explicar esse processo, o professor Emil José Hernández Ruz, docente do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Conservação (PPGBC/Campus Altamira), afirma que a floração dos ipês dos gêneros Handroanthus e Tabebuia tem forte associação com as particularidades de sua fenologia, que é a análise dos fenômenos do desenvolvimento do ser vivo e sua relação com fatores ambientais e climáticos externos.
Mas vamos explicar por etapas: a floração é um dos eventos fisiológicos mais complexos do ciclo de vida das plantas. Ela transforma o meristema apical caulinar, região ápice da ponta do caule de vegetativo para floral, e envolve questões como a ativação de mais de 80 genes que coordenam a divisão celular, a diferenciação de tecidos, a síntese hormonal e a produção de pigmentos e aromas. O “gatilho” para a indução da floração pode ser resultado natural de seu crescimento ou uma resposta aos sinais de mudanças no ambiente.
Estudos atuais explicam alteração de calendário
O professor Emil Hernández descreve que, em Belém, alguns ipês florescem apenas quando atingem uma idade de maturidade fisiológica ou tamanho adequado para produzir e acumular a quantidade necessária de sacarose e conseguir sustentar a formação das estruturas florais.
Há espécies mais sensíveis, a depender de estímulos ambientais, como a duração dos dias e das noites (fotoperiodismo), sendo que os ipês apresentam condições mais benéficas em dias mais curtos e noites mais longas; a quantidade e qualidade da luz (fotorreceptores) e água recebida pelas plantas, que são básicas para a manutenção do metabolismo e a realização da fotossíntese, além de variações climáticas anuais.
“Pesquisas demonstram que o calendário de início, frequência e força da floração é afetado por alterações na temperatura, precipitação e índice de aridez ambiental. A temperatura é o fator direcionador do início da floração. O aquecimento geralmente antecipa esse início em virtude do acúmulo de graus-dia”, ressalta o professor.
Outros determinantes ambientais são as taxas de nutrição mineral no solo e na planta, sobretudo do nitrogênio, cuja presença tem relação ao uso excessivo de fertilizantes nitrogenados, ao acúmulo de matéria orgânica e aos desequilíbrios nos processos biológicos do solo. O pesquisador afirma que o excesso de nitrogênio estimula um crescimento acentuado da parte aérea da planta (ramos e folhas) e retarda a floração, enquanto a escassez pode estressar a planta e estimular uma floração precoce.
O processo biológico da floração costuma estar associado à sazonalidade. Logo fortes alterações na duração da seca, na distribuição das chuvas ou na temperatura podem modificar os “gatilhos” ambientais que desencadeiam esses eventos. Apesar disso, vale lembrar que grande parte dos ipês que floresce na Amazônia são espécies de distribuição ampla e com boa tolerância ecológica, o que, segundo Emil Hernández, não gera ameaças em curto prazo.
Se o ipê floresce antes, o que pode mudar?
O maior problema de uma antecipação do desabrochar dos ipês é o descompasso fenológico. Se a floração se adianta, mas os seus polinizadores como abelhas, vespas, borboletas, pássaros e morcegos não conseguem adaptar suas atividades ao novo calendário, há chances de redução de visitação, transporte de pólen e, por consequência, melhor produção de frutos e sementes.
Outra situação é que a floração pode deixar de coincidir com condições meteorológicas favoráveis, mudando, até mesmo, a relação com outras plantas que florescem simultaneamente, gerando maior competição ou facilitação por polinizadores, o que desencadeia uma dispersão e germinação antecipada. Esse adiantamento recorrente faz com que sementes e plantas recém-germinadas encontrem condições de chuva e umidade diferentes das usuais.
Para o docente, isso também conecta o Pará ao que está sendo estudado em outras partes do mundo, sobre clima e meio ambiente, pois as mudanças, na época de eventos biológicos como floração, brotamento, migração, reprodução e atividade de insetos nos ipês, são fortes respostas às mudanças ou aos extremos climáticos.
Mas, para ele, é importante reforçar uma cautela científica: “Encontrar um ipê florescendo algumas semanas ou meses antes do esperado não permite, sozinho, atribuir o fenômeno às mudanças climáticas. Um ano atípico pode resultar de uma anomalia meteorológica natural, de condições locais ou mesmo da história daquela planta específica. Para transformar essa observação em evidência de uma mudança ambiental persistente, precisamos de repetição, séries temporais e comparação com dados meteorológicos”, comenta.
E é aí que o professor Emil Hernández enfatiza que os ipês devem ser mais profundamente investigados como interessantes bioindicadores para o futuro dos ciclos de vida das plantas. “Eu diria que o ipê funciona como um ‘termômetro biológico', mas um termômetro diferente do meteorológico. A estação meteorológica registra graus Celsius e milímetros de chuva; a árvore registra a integração dessas condições na forma de folhas, flores, frutos e sementes. Se o calendário do ambiente muda de maneira persistente, o calendário da vida pode mudar junto”, finaliza o especialista.

Sobre o pesquisador: Graduado em Biologia, mestre em Zoologia e doutor em Genética e Biologia Molecular. É professor do Programa de Pós-graduação em Biodiversidade e Conservação da UFPA Campus de Altamira e líder do grupo de pesquisa Biodiversidade e manejo de florestas. Tem experiência nas áreas de Zoologia, Genética molecular e Ecologia Florestal.
Edição Rosyane Rodrigues | Fotos: Alexandre de Moraes |Arte: CMP/Ascom
Beira do Rio edição 178 – Julho a Setembro
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