Ir direto para menu de acessibilidade.

GTranslate

Portuguese English Spanish

Opções de acessibilidade

Página inicial > Exclusivo > Especial de Verão_Urbanização
Início do conteúdo da página

Especial de Verão_Urbanização

Publicado: Quarta, 19 de Agosto de 2026, 20h18 | Última atualização em Sexta, 21 de Agosto de 2026, 18h08 | Acessos: 92

Ilhas de calor: como o concreto está esquentando Belém

#ParaTodosVerem:Fotografia mostra visão panorâmica de um trecho da cidade de Belém. Ao fundo, estão prédios brancos e amarelados, de diferentes tamanhos. Nas laterais, há uma cobertura de árvores verdes. Ao centro, está o Teatro da Paz, uma construção histórica de fachada avermelhada e branca vista de lado. Ao redor, há um estacionamento com alguns carros.
imagem sem descrição.

Por Luiza Amâncio

Belém, cidade equatorial banhada pela Baía do Guajará, sempre conviveu com o calor e a umidade típicos da Amazônia. Mas o crescimento urbano desordenado das últimas décadas tem intensificado esse cenário, criando o que especialistas chamam de "ilhas de calor urbanas", áreas da cidade que registram temperaturas visivelmente mais altas que seus arredores. O professor Edivaldo Afonso de Oliveira Serrão, da Faculdade de Meteorologia, do Instituto de Geociências (IG/UFPA), explica os mecanismos por trás do fenômeno e seus impactos sobre a capital paraense.

Segundo o pesquisador, tudo começa na forma como a cidade substitui a vegetação por superfícies artificiais. "A mudança no uso e na cobertura da terra, como a retirada da vegetação para dar lugar a áreas urbanizadas, altera, inicialmente, o saldo de radiação na superfície e, consequentemente, o balanço de energia", explica.

Em áreas verdes, boa parte da energia solar é usada na evapotranspiração, processo pelo qual plantas e solo transferem água para a atmosfera, o que ajuda a resfriar o ambiente. "Quando substituímos essa vegetação por concreto, asfalto e outras superfícies impermeáveis, reduzimos a disponibilidade de água para evapotranspiração e, consequentemente, uma parcela maior da energia passa a ser convertida em calor sensível", diz Edivaldo Serrão. Segundo ele, essas superfícies também armazenam e liberam calor ao longo do dia e da noite.

O professor explica que a ilha de calor urbana ocorre quando determinadas áreas urbanizadas apresentam temperaturas mais elevadas do que áreas menos urbanizadas ou com maior cobertura vegetal no entorno. Em Belém, o fenômeno costuma ser mais forte entre junho e novembro, período de menor chuva na região. "Nessa época, há períodos com menor cobertura de nuvens e, consequentemente, maior entrada de radiação solar na superfície", detalha.

Apesar da vulnerabilidade, Edivaldo Afonso Serrão pondera que Belém tem particularidades que podem amenizar o problema: "A cidade está próxima à linha do Equador e recebe elevada quantidade de energia solar ao longo do ano. Ao mesmo tempo, está localizada às margens da Baía do Guajará, o que favorece a atuação de circulações locais, como as brisas, que podem contribuir para a redistribuição de calor e umidade". No entanto o intenso processo de urbanização, a redução da cobertura vegetal, a ocupação de áreas de várzea e a impermeabilização do solo podem agravar os efeitos do aquecimento urbano.

Ocupação urbana gera diferenças térmicas na área metropolitana

O impacto da urbanização vai além do termômetro. Segundo Edivaldo Serrão, o contraste entre diferentes áreas da cidade pode gerar diferenças térmicas e de pressão que influenciam a circulação do ar e, consequentemente, a formação e distribuição das nuvens de chuva. Isso não significa que a cidade "cria" chuva, mas pode alterar onde e como ela cai.

O efeito mais direto, no entanto, está nos alagamentos. "Com a impermeabilização do solo, a água da chuva deixa de infiltrar adequadamente e escoa rapidamente pela superfície, aumentando o volume de água direcionado para as áreas mais baixas", detalha o professor. Em Belém, esse problema tem agravantes específicos: "A baixa declividade de grande parte da cidade e o movimento das marés podem dificultar o escoamento das águas pluviais em determinados períodos”.

O professor chama atenção para um ponto em específico: em clima equatorial, o desconforto térmico não depende só do termômetro. "Em ambientes quentes e úmidos, como Belém, o organismo tem maior dificuldade para perder calor por meio da evaporação do suor. Por isso uma temperatura que poderia ser suportável em um ambiente seco pode gerar uma sensação de calor muito maior em Belém”, explica.

O meteorologista faz uma distinção importante: "A urbanização não é necessariamente responsável pela criação de uma chuva extrema ou de uma onda de calor, pois também há influência de fatores regionais e de grande escala". Contudo a expansão urbana desordenada pode intensificar determinados efeitos locais e, principalmente, aumentar a exposição da população.

Para reverter o quadro, Edivaldo Serrão defende uma mudança de abordagem no planejamento da cidade, com mais infraestrutura verde: ampliação da arborização, criação de parques, preservação de várzeas e corpos d'água, além de jardins de chuva e pavimentos permeáveis. "Essas soluções podem contribuir simultaneamente para reduzir a temperatura, aumentar a infiltração da água, diminuir o escoamento superficial e melhorar o conforto térmico", defende.

Para o professor, a cidade precisa parar de pensar na drenagem apenas como escoamento rápido da água. A proposta é simples: migrar de uma infraestrutura predominantemente 'cinza' para uma abordagem integrada entre infraestrutura cinza, verde e azul. "O planejamento urbano precisa considerar o clima como um componente fundamental. Devemos pensar não apenas em construir sistemas de drenagem para retirar rapidamente a água da cidade, mas também em permitir que a cidade absorva, retenha e utilize parte dessa água, ao mesmo tempo em que ampliamos as áreas verdes”, conclui.

Sobre o pesquisador - Edivaldo Afonso de Oliveira Serrão é professor da Faculdade de Meteorologia, do Instituto de Geociências (IG/UFPA). Doutor em Meteorologia pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), com ênfase em modelagem hidrológica, mudanças climáticas e mudanças no uso e na cobertura da terra. CV Lattes http://lattes.cnpq.br/5700978243198274

Edição Rosyane Rodrigues | Fotografia: Adolfo Lemos/Acervo Ascom

Beira do Rio edição 178 – Julho a Setembro

Fim do conteúdo da página