Especial Orgulho LGBTQIAPN+
Saúde mental: pesquisa aponta maior vulnerabilidade entre estudantes LGBT+
Por Kauã Ramalho
A jornada no ensino superior molda carreiras e promove descobertas. Ao mesmo tempo, a vida acadêmica também se desenvolve em um ambiente que pode testar os limites da saúde mental. Para estudantes da comunidade LGBT+, esses desafios são frequentemente potencializados, tornando o debate sobre acolhimento e bem-estar uma pauta central na universidade. O artigo intitulado "A relação entre diversidade sexual e saúde mental no ensino superior", do pesquisador Vinicius Cutrim e colaboradores, tem essa questão como foco.
A pesquisa investigou a prevalência de ansiedade, depressão e estresse em um levantamento realizado com 551 universitários, envolvendo o curso de Engenharia Civil (257) e cinco cursos do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), sendo Psicologia, Filosofia, História, Ciências Sociais e Geografia, totalizando mais 294 entrevistados. O levantamento foi realizado por meio da aplicação de um questionário online e da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse, que identificaram índices alarmantes de saúde mental, especialmente entre estudantes LGB's (lésbicas, gays e bissexuais), quando comparados aos heterossexuais.
Um dos achados mais notáveis do estudo revelou que a maior diferença na saúde mental entre estudantes heteronormativos e não-heteronormativos foi observada no curso de Geografia, e em segundo lugar, no curso de Ciências Sociais. “Por mais que sejam cursos que estão dentro de uma área que fala mais sobre esse assunto, sobre diversidade, direitos e tudo mais, o saber falar não é necessariamente saber fazer. Eu posso saber todos os direitos de pessoas LGBTs, por exemplo, e mesmo assim me comportar de uma forma excludente, preconceituosa, com determinados estigmas e violências”, explica Vinicius.
Quanto maior a exposição, maior o risco
Outro aspecto evidenciado na pesquisa é a diferença apresentada entre calouros (com até um ano de curso) e veteranos (com pelo menos três anos de vida acadêmica). Enquanto os calouros apresentaram níveis considerados normais para a saúde mental, os veteranos já indicam quadros de nível moderado a grave. Isso sugere que a permanência na universidade pode ser uma variável de risco, pois se agrava conforme o tempo de exposição e por trazerem marcadores sociais adicionais. “Mesmo para a pessoa mais hegemônica do mundo, a exemplo de um homem branco, hétero, cis e europeu, a universidade vai ser uma experiência potencialmente desafiadora. E isso se altera à medida em que se inserem marcadores sociais”, reflete o pesquisador.
Para corroborar esses resultados, Cutrim utiliza a Teoria do Estresse de Minoria (TEM), a qual postula que o preconceito vivenciado por grupos marginalizados leva a comprometimentos de saúde mental, resultantes dos conflitos gerados pela discriminação e estigmatização social. Além disso, a pesquisa discute o conceito de “Ambiente Nutridor” (AN), que define espaços acolhedores como cruciais para o desenvolvimento cívico saudável. Assim, o estudo sugere que o ambiente universitário, mesmo tendo qualidades, ainda pode aguçar problemas de saúde mental preexistentes em estudantes LGB, principalmente dentre os veteranos.
“O ambiente nutridor traz essas diretrizes para que a gente consiga pensar em estratégias preventivas e coletivas. Desse modo, busco identificar as fragilidades e potencialidades do ambiente universitário, que é um ambiente incrível, mas que também pode continuar fortalecendo alguns mecanismos de violência”, explica Vinícius.
A pesquisa, portanto, prossegue em aprofundamento. “A ideia é que os dados possibilitem o desenvolvimento de estratégias e intervenções institucionais viáveis, sem propostas utópicas. Acredito que o contato com o outro, o coletivo, é fundamental para potencializar a saúde e o bem-estar, pois pessoas podem ajudar pessoas em qualquer espaço”.
Sobre a pesquisa: Publicado em 2025 na revista Caderno Pedagógico, o artigo intitulado “A relação entre diversidade sexual e saúde mental no ensino superior” conta com a autoria de Vinícius Cutrim Ferreira. O pesquisador é mestrando vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento (PPGTPC) da Universidade Federal do Pará (UFPA)
Nota da edição: mantivemos na reportagem os termos utilizados pelo autor "LGBTQIAPN+1", "LGB" e "LGBT+"
Edição: Jéssica Souza | Imagem: banco de imagem/hidden-dilemma
Beira do Rio edição 178 – Maio a Agosto
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