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Baixo Tocantins em risco

Escrito por Beira do Rio | Publicado: Sexta, 01 de Fevereiro de 2019, 13h47 | Última atualização em Quinta, 04 de Julho de 2019, 18h21 | Acessos: 1225

Agrotóxicos presentes em igarapés que alimentam rios em Tailândia (PA)

Por Renan Monteiro Foto Acervo da Pesquisa

O cultivo de palma de dendê tem importância tanto no ramo alimentício quanto no mercado energético, pois seu óleo pode ser utilizado como matéria-prima para o biodiesel. No nordeste do Pará, a expansão da dendeicultura está inserida em um movimento nacional de estímulo do governo à produção de biocombustíveis. Em 2010, por exemplo, foi criado o Programa Nacional de Produção de Óleo de Palma (PNOP). Com programas como esse, agricultores familiares e grandes empresas estabeleceram cada vez mais contratos para o cultivo e fornecimento de produtos agrícolas no nordeste paraense. Nesse contexto, está o elevado uso de agrotóxicos e seus impactos socioambientais, tema muito discutido entre ruralistas e ambientalistas.

Em 2014, o Instituto Evandro Chagas (IEC) divulgou os resultados de uma pesquisa que detectou a presença de contaminação por agrotóxicos nas águas da região do Baixo-Tocantins, no Pará. O local era conhecido como região de expansão do dendê. Atualmente, um dos principais impactos ambientais no nordeste paraense - além dos grandes desmatamentos - tem sido a contaminação por agrotóxicos em igarapés que alimentam os inúmeros rios da região.

Em sua dissertação, Impactos Socioambientais de produção de palma de dendê na Amazônia paraense: uso de agrotóxicos e poluição ambiental nas sub-bacias hidrográficas, Tailândia (PA), a engenheira agrônoma e professora da Universidade do Estado do Pará Rosa Helena Cruz analisa os dados da pesquisa do IEC, elencando quais agrotóxicos são utilizados e quais os seus impactos. O recente estudo foi defendido no Programa de Pós-Graduação em Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia (PPGEDAM-Numa).

Sob a orientação do professor André Luis Assunção Farias, a dissertação surgiu de estudos do Grupo de Pesquisa Avaliação Ambiental de Grandes Projetos na Amazônia (GAAGPAM).

No município de Tailândia, as coletas aconteceram em sub-bacias de rios como Turiaçu, Acará, Auiaçu, Anuerá, totalizando nove pontos de coletas. Foram também realizadas entrevistas com sete comunidades localizadas às margens dos rios, com um total de 95 entrevistados. “O uso do agrotóxico como forma de controle de pragas e doenças e como garantia de produtividade põe em risco o ecossistema, pois o uso que o Brasil vem aplicando e definindo em suas políticas públicas faz com que ocorram inúmeros problemas de contaminação, colocando em sério risco os meios bióticos e abióticos em razão dos efeitos deletérios dos ditos agrotóxicos’’, adverte Rosa Helena Cruz.

As sub-bacias do rio Acará e Anuerá são utilizadas pelas duas grandes empresas produtoras de óleo de palma instaladas na região, em 2010. Os plantios das empresas ficam no entorno das sub-bacias pela necessidade dos recursos hídricos na produtividade. A pesquisa foi realizada em parceria com a Secretaria de Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente do município de Tailândia (PA) e com o Instituto Evandro Chagas, para a realização das coletas e das análises.

Herbicidas identificados nas sub-bacias de Anuerá e Auiaçu

Pesquisa do IBGE divulgada em 2015 aponta que, em relação aos dez anos anteriores, o uso de agrotóxicos havia aumentado 150%. Atualmente, o País consome cerca de um milhão de toneladas desses produtos por ano, sendo um dos líderes mundiais de consumo. Na análise toxicológica das águas, foram identificados traços de atrazina e glifosato nas sub-bacias do rio Anuerá e na sub-bacia do Auiaçu, próximo de plantios pertencentes às empresas.

Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer classificou o glifosato como um provável carcinógeno. Rosa Helena explica que o solo não consegue absorver o glifosato de forma rápida. O seu lento período de degradação no solo faz com que ele seja lixiviado (escorrido) pela água da chuva, contaminando os rios.

“Este agrotóxico atinge diretamente a saúde do trabalhador. Ele sofre adsorção, como se ficasse ‘passeando’, sem ser absorvido, agindo diretamente para ‘matar mato’, como dizem os agricultores. Uma das características do glifosato é sua rápida translocação das folhas da planta tratada para as raízes, rizomas e meristemas apicais. Essa propriedade sistêmica resulta na destruição total de plantas invasoras perenes, deixando-as ‘esturricadas’. Agora, imagina as consequências desse produto em uma pessoa?”, questiona Rosa Helena Cruz.

O protocolo ocorrido para detectar agrotóxicos apresentou resultado positivo também para atrazina. De acordo com a pesquisadora, a atrazina é bastante tóxica e persistente no ambiente, principalmente em leitos ou corpos d’água. Em plantas susceptíveis, agem inibindo a fotossíntese, enquanto em plantas resistentes a atrazina é metabolizada. Além disso, esse agrotóxico também tem potencial cancerígeno em humanos.

A quantidade de glifosato e atrazina detectada estava abaixo dos valores máximos permitidos pela legislação do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), porém a pesquisadora afirma que qualquer valor merece atenção, pois o risco é iminente. “Eu tenho a dissertação como um alerta, para que possamos observar o que já está acontecendo nessa região, com a expansão do agronegócio da soja, do milho e da palma de dendê. A presença de agrotóxicos foi constatada em áreas próximas de uma empresa de produção de dendê e de uma empresa de plantio de soja. Isso só afirma que os riscos ambientais já começaram na região”, alerta a pesquisadora.

Comunidade faz relatos de dores, náuseas e AVC

Nas entrevistas com as comunidades locais, foram relatados casos de coceira no corpo, AVC, dor de estômago, náuseas, dor de cabeça e problemas respiratórios, mas nada pode ser comprovado, pois faltam os exames toxicológicos na região. Muitas áreas de plantio têm influenciado diretamente o uso da água pelos agricultores, pois, em muitos trechos, a água dos rios está inviável para consumo ou qualquer outro proveito. O uso de agrotóxicos, aliado à inexistência de saneamento básico nessas comunidades, tem aumentado consideravelmente a poluição aquática na localidade.

“No Pará, não se consegue achar estudos sobre sequelas de agrotóxico em humanos, pois não há registros dentro do sistema de saúde estadual que possam comprovar os sintomas deletérios. Até agora, trabalhamos apenas com sintomatologia. A questão é que o impacto ambiental acaba afetando a população de uma forma ou de outra, pois as pessoas precisam lidar com os problemas de saúde e com a falta de água. Como agrônoma, acredito que o problema maior é o uso do agrotóxico sem controle, levando à banalidade. Em Tailândia, comprar o glifosato é como comprar uma mercadoria qualquer. Na legislação, há o controle da venda, mas não há fiscalização”, afirma Rosa Helena.

Outro ponto de destaque nas entrevistas com as comunidades foi identificar que, para todo processo de adubação que os agricultores fazem, há treinamento, mas sem acompanhamento contínuo, evidenciando, assim, o maior risco de contaminação socioambiental pelos agrotóxicos. “É perceptível a insatisfação deles com relação às empresas. Eles se sentem desamparados”, relata a pesquisadora.

Com base na demanda dos agricultores em seus plantios, no final da pesquisa de campo foi elaborada uma cartilha com informações sobre os cuidados que se deve ter ao fazer a aplicação de agrotóxicos. O material foi fundamentado na cartilha dos Grupos de Educação, Saúde e Agrotóxico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Saiba mais

O Projeto de Lei 6.299/2002 conhecido por “PL do Veneno” foi aprovado em comissão no Congresso Nacional e aguarda votação em plenário. O projeto flexibiliza a utilização dos agrotóxicos no país, além de propor a mudança do nome “agrotóxico” para “pesticidas” ou “defensivos fitossanitários”, o que segundo especialistas, só oculta os efeitos nocivos dos produtos químicos. De autoria de Blairo Maggi, ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do governo de Michel Temer, o projeto tem sido amplamente discutido por diversos órgãos que se declaram contra, como a Anvisa e o Ibama e favoráveis, como a bancada ruralista.

Ed.147 - Fevereiro e Março de 2019

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Impactos Socioambientais de produção de palma de dendê na Amazônia paraense: uso de agrotóxicos e poluição ambiental nas sub-bacias hidrográficas, Tailândia (PA)

Autora: Rosa Helena Cruz 

Orientador: André Luis Assunção Farias

Programa de Pós-Graduação em Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia (PPGEDAM-Numa).

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