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O movimento social não morreu

Publicado: Terça, 11 de Dezembro de 2018, 16h33 | Última atualização em Quarta, 12 de Dezembro de 2018, 14h47 | Acessos: 1210

Redes sociais são novo espaço de mobilização de moradores

imagem sem descrição.

Por Flávia Rocha Foto Acervo da Pesquisa

O bairro Jurunas é um dos mais antigos de Belém e local de origem de muitos movimentos sociais na cidade. De meados da década de 1960 até os anos 2000, o envolvimento da população em movimentos sociais era notório, porém, atualmente, nota-se o declínio dessas atividades. Por que essa diminuição ocorreu? Os movimentos sociais jurunenses acabaram de vez? Para responder a essas perguntas, a historiadora Nádia Alessandra Rodrigues da Silva elaborou a dissertação Movimentos sociais no bairro do Jurunas: formas de participação política nas últimas décadas, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU/NAEA), sob a orientação da professora Rosa Elizabeth Acevedo Marin.

A pesquisa buscou não apenas analisar os movimentos sociais do bairro, mas também demonstrar como as pessoas compreendem e praticam política. Para isso, Nádia Silva usou conceitos de Francisco de Oliveira e Hannah Arendt, estudou fotografias e realizou entrevistas com fundadores dos movimentos e militantes da atualidade, comparando a participação popular durante o Orçamento Participativo e a obra de Macrodrenagem da Estrada Nova. “Quando eu vi que não havia quase nada de bibliografia a respeito, achei interessante contar um pouco dessa história, para que ela não se perca”, disse a pesquisadora.

O Orçamento Participativo ou OP (1997-2000) e o Congresso da Cidade (2001-2004) consistiam em assembleias nas quais delegados eleitos pela população decidiam quais seriam as prioridades de investimento da prefeitura. A pesquisa mostra que, em 2003, o Distrito Administrativo do Guamá, do qual o bairro do Jurunas faz parte, teve o maior número de candidatos inscritos - um total de 106 - e a eleição contou com a participação de 47 mil votantes, dos 872 mil aptos a votar. “Havia, também, as ‘parcerias’, por meio das quais os moradores organizavam eventos para arrecadar fundos e para estabelecer acordos com empresas privadas ou com o próprio governo para realizar as obras necessárias no bairro. Isso ia além do OP”, relembrou Nádia Silva, que também é moradora do bairro.

Para a maioria, “política” está com a imagem desgastada

A historiadora afirma que o anúncio da obra de macrodrenagem da Bacia da Estrada Nova, em 2010, na sede do Rancho Não Posso me Amofinar, reduziu os moradores do bairro a meros expectadores. Nádia também apresenta o Boletim Informativo, feito pelo Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (PNCSA), o qual mostra um número significativo de desapropriados e deslocados de suas residências, sem que esses cidadãos tivessem conhecimento do baixo valor das indenizações. “O projeto inicial não previa a manutenção do Porto do Açaí. Os ribeirinhos da área, por exemplo, vêm comercializar várias coisas na feira. Isso seria uma perda muito grande, tanto para a economia quanto para a cultura do bairro. Esse Boletim ajudou a alertar a população sobre os prejuízos que ela sofreria”, afirma a pesquisadora.

O conceito de “fazer política”, do sociólogo Francisco de Oliveira, foi usado na pesquisa para esclarecer o porquê de a maioria da população não se engajar politicamente na atualidade. Oliveira afirma que a política em si tenta reparar ou reduzir os níveis que distanciam as classes. Porém, segundo a pesquisa, a categoria política tem tido sua imagem e significado desgastados diante da sociedade, sendo associada a fatores negativos, como a corrupção, desencorajando a participação dos indivíduos.

Com base na dissertação, Nádia Silva concluiu que os movimentos sociais do Jurunas não acabaram. “Não houve uma preparação da juventude, que deveria assumir a liderança do movimento. Os centros comunitários foram caindo na mão de partidos políticos e perderam o caráter reivindicatório, tornando-se mais assistencialistas. Isso fez o movimento se enfraquecer. Hoje, o ativismo é feito pela internet. Quando Belém fez 400 anos, houve uma grande mobilização pelas redes sociais, chamada de ‘Grito da Estrada Nova’, para reclamar contra as condições do bairro”, diz Nádia. A pesquisadora contou também que os moradores das ruas Timbiras e Caripunas não foram desapropriados de seus lares, como previa o projeto original da obra de Macrodrenagem, em razão da sua mobilização. “O ativismo aparece diante da necessidade”, avalia.

Ed.146 - Dezembro e Janeiro de 2018/2019

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Movimentos sociais no bairro do Jurunas: formas de participação política nas últimas décadas

Autor: Nádia Alessandra Rodrigues da Silva

Orientadora: Rosa Elizabeth Acevedo Marin

Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU/NAEA)

Comentários  

0 #8 Antonio Silva 28-01-2019 22:39
Excelente trabalho, o jurunas precisa de pesquisas como esta.
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0 #7 Geandre 28-01-2019 21:10
Muito bom trabalho....a Juventude perdeu espaço em alguns lugares onde fariam a diferença nos dias atuais.
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0 #6 Jerbesson odely 28-01-2019 20:48
Realmente a politicagem e o assistencialismo, meio que impactaram de forma negativa no surgimento na "oxigenação" dos movimentos.
Bela explanação!
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0 #5 Vicente 28-01-2019 18:10
Gostei muito da análise e faz refletir como será os movimentos sociais no futuro. Parabéns!
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0 #4 Benedito Costa 28-01-2019 17:15
Parabéns Nádia. Belo trabalho do resgate das memórias do Bairro do Jurunas.
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0 #3 Alba Siuza 28-01-2019 16:39
Momento de grande satisfação para quem não tinha mais esperanças de recordar a historia dos bairros.
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0 #2 Jaqueline 28-01-2019 16:16
Tive a honra de cursar a graduação com a Nádia e o privilégio de ver essa dissertação nascer como monografia. Que a tua pesquisa continue, minha amiga!
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+2 #1 helvina castro 13-12-2018 23:33
:lol: excelente e oportuna dissertacaoo, parabens!
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