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Opinião

Publicado: Segunda, 29 de Junho de 2020, 22h40 | Última atualização em Segunda, 29 de Junho de 2020, 22h43 | Acessos: 206

A solidão dos idosos em tempos de pandemia

Por Dário Azevedo dos Santos Foto Acervo Pessoal

Distanciar-se e isolar-se é solidão? E quando, por qualquer razão, nós nos distanciamos dos outros e, entre eles, dos idosos é abandono, descaso, negligência, solução ou crime contra a pessoa idosa?

Seja como for, diante de tantos motivos para refletirmos em tempos de covid-19, podemos dizer que a solidão é uma doença social e, hoje, no mundo, há um contingente significativo de idosos sofrendo de solidão enquanto jovens adotam animais para aumentar a autoestima.

No caso dos idosos, mesmo estando em suas casas, em centros de convivência ou em casas de repousos assistidos por cuidadores, a solidão chega pela ausência-presença ou presença-ausência do círculo de afetos de familiares e amigos. Certamente lhes vem a pergunta: por que razão estou aqui, depois de tudo o que vivi? Ou, como nos diria Norbert Elias: “por que estou diante da solidão dos moribundos?”

Nesses tempos de pandemia, e mesmo antes, a solidão vem rondando a vida dos idosos com muita força. Não por acaso, eles necessitarem de nossos afetos no cuidado de si. Gostariam que o leitor entendesse que o envelhecimento não é uma fase da vida. É, sobretudo, um modo de vida!

Então, sem os estigmas, como: velho é teimoso, velho é chato, velho é lento, velho repete, eles podem até ser tudo isso, mas porque temos dificuldades de compreender que seus sentimentos, seu modo de pensar e suas atitudes reescrevem um modo de vida que quebra os protocolos e foge dos nossos modelos de controle disciplinares. Por isso achamos estranho e incomoda-nos, pois temos pouca ou nenhuma habilidade para lidar com eles.

Primeiro, não gostamos de nos reconhecer velhos. Sofremos da síndrome da eterna juventude. Para cada um de nós, em nossas singularidades, o velho é sempre o outro. Segundo, temos dificuldades de entender que o tempo do velho é outro. Nele a afetividade é maior que as cronologias das idades, por isso um abraço sincero, um dormir coladinho, um minuto de escuta de suas repetidas narrativas são ganhos. Então, escutar uma música, mesmo com baixa audição; assistir a um filme, ou lembrar-se dele, mesmo com pouca visão; ou lembrar-se da brincadeira de infância, mesmo enfrentando demência senil, faz parte de seu repertório e trilhas de afetividade nas bordas da sua trajetória de vida.

Fica a dica: tomar o café da tarde relembrando esses momentos ativa a memória afetiva dos idosos e distancia-os da solidão. Mostra, de modo claro, o quanto as pessoas idosas desejam ser ouvidas. Se nesse momento da vida diminui o desejo da carne e do sexo, o tempo não congela nem inibe seus modos ‘desejantes’.

Não podemos ser indiferentes aos idosos, devemos aprender com eles. O que eles desejam de nós é o colo, a atenção, a segurança e o acolhimento. Mas não esqueça: idoso não é filho! Os velhos não são crianças, mas precisam de um ego auxiliar para garantir a sua autonomia e resiliência diante da solidão. Por isso vencer o coronavírus é mais difícil sem essa compreensão da velhice.

Até aqui, estou falando dos velhos “visíveis”. Mas e os velhos “invisíveis”? Os sem fama e sem glória, que seguem por essas estradas e esquinas da vida? Eles são nômades, andarilhos, passantes, não têm casa nem colo. Quem cuida deles em tempo de pandemia? As ações de governo são paliativas, porém os problemas de abandono e solidão são históricos e estruturais.

Será que as medidas paliativas querem salvar as pessoas idosas, principalmente as que estão em situação de extrema pobreza? Ou os pragmáticos querem tirar dividendos desse momento de pandemia para colocar seus interesses políticos em primeira mão?

Para as doenças crônicas, infecciosas, cardiovasculares e pulmonares, é necessário o uso diário dos fármacos vendidos pelo mercado da saúde. No entanto, em tempos de solidão, o remédio imediato talvez seja o afeto. Ele aumentará a resistência e a imunidade para que os idosos enfrentem os sintomas da covid-19.

E quando tudo isso passar, esperamos por um novo olhar planetário para a inclusão e a consolidação (intergeracional e intrageracional) de uma cultura do envelhecimento, em que estar só não se constitua em uma patologia da solidão, mas em um modo de vida para quem assim desejar. 

Dário Azevedo dos Santos – Professor associado da UFPA, Campus Castanhal, doutor em Educação, coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Envelhecimento Humano, Educação e Sexualidades (Nepes). E-mail:  <dario.doc@hotmail.com>

Ed.155 - Jun/Jul/Ago de 2020

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