A arte que sobrevive à margem
Memória e resistência do circo de rua em Belém (PA)
Por Luiza Amâncio
Nos semáforos da Travessa Nove de Janeiro, em Belém, ou nas salas de aula da Universidade Federal do Pará (UFPA), o malabarista e pesquisador Yure Martins costura memórias, apagamentos e resistências. Em sua tese, optou por um gesto ousado: organizá-la como se fosse um espetáculo. A ideia partiu da orientadora, professora Bene Martins: convocar o leitor como convoca o público na rua a prestar atenção à arte que insiste em sobreviver à margem. Yure utilizou essa liberdade criativa permitida na área das Artes para fugir do formato tradicional.
A pesquisa se baseia em um hábito pessoal de registrar, por meio de fotos, desde 2008, seus treinos e ensaios com malabares. Yure aborda a memória por diversas mídias, como vídeo, cinema e documentários (alguns que ele ajudou a produzir) e, principalmente, fotografias, que ele descreve como "retrato congelado de uma realidade". O pesquisador ressalta a complexidade de trabalhar com a própria memória, e não com a história, já que poucos pesquisadores trabalham com suas próprias lembranças.
A interconexão entre as memórias individual e coletiva na prática cotidiana dos artistas circenses de rua é um ponto importante da tese. Yure buscou construir uma metodologia que fizesse conversar métodos de discussão sobre memória, mesmo que contraditórios ou antagônicos, utilizando referências da História, da Antropologia e das Ciências Sociais. Seu projeto original previa entrevistas com pessoas com quem convivia, para que a memória-guia do relato, a sua própria, não fosse a única. No entanto a pandemia impossibilitou grande parte dessas entrevistas presenciais, especialmente com artistas de rua, que nem sempre possuem acesso à internet.
Para contornar essa dificuldade, Yure optou por transcrever textos de documentários que havia produzido com outros colegas e utilizar entrevistas que já havia realizado em outros momentos, inclusive algumas transcritas por colegas em teses sobre arte de rua. O objetivo era que sua memória servisse como um fio condutor, entrelaçando-se com várias outras, estando nessa relação com algo grupal, a arte de rua, que tem várias manifestações. Essa abordagem busca a partilha coletiva e afetiva.
Yure destaca a importância dos encontros semanais de malabares e circo, que surgiram da necessidade dos artistas de rua de se reunirem em seus dias de descanso, geralmente às segundas-feiras, após faturarem nos fins de semana. Esses encontros, que ocorreram regularmente em Belém, na Praça da República e na Praça de São Brás, até 2017, e de forma itinerante, até 2023, foram cruciais para a formação e resistência dos artistas circenses.
A construção da identidade circense em Belém
A tese também aborda a memória da Escola Circo, uma instituição que, embora tenha uma forte presença na cidade de Belém, não formou a maioria dos artistas circenses de rua que atua localmente. A escola atendia um grupo bem específico de crianças em situação de vulnerabilidade e de áreas carentes, e muitos artistas de rua hoje vêm de outros municípios ou regiões que não eram abrangidos pela escola.
Yure ressalta que, durante algumas gestões municipais, a instituição foi alvo de críticas, sendo associada à ideia de que as crianças eram incentivadas a pedir dinheiro nos semáforos. Ele contrapõe essa visão explicando que, para o artista de rua, o semáforo é o palco em que ele oferece sua arte, e o pagamento é voluntário.
Essa discussão reflete o preconceito enfrentado pelos artistas de rua. “Para o artista que está na rua, aquele é o palco dele. Então você oferece a sua arte e quem quiser paga, se quiser, e o quanto puder. É diferente de uma situação de formação. A gente discute muito com o preconceito da nossa prática, nesse sentido”, afirma Yure.
“O circo, assim como o teatro, sempre foi marginalizado”. Yure aponta que a relação histórica dos circenses com os ciganos, povos perseguidos por séculos, contribuiu para essa visão. Apesar de o circo no Brasil ter suas raízes na rua, com anfiteatros e apresentações de praça, as apresentações na rua passaram a ser consideradas inferiores, e esse estigma permanece até hoje.
O termo "artista de rua" é uma autoidentificação para aqueles que não nasceram no circo tradicional, mas praticam as artes circenses em espaços públicos. A privatização do espaço público e a proibição da arte circense de rua em diversas prefeituras do Brasil, especialmente malabaristas com fogo ou com espadas cenográficas, contribuem para a marginalização.
A falta de institucionalidade é outro fator significativo. O circo possui pouquíssimos cursos técnicos e de graduação, fora a Escola Nacional de Circo no Rio de Janeiro, que se tornou curso técnico há poucos anos. Isso leva muitos artistas circenses a serem autodidatas ou a buscarem formações em áreas como a Educação Física, como é o caso de Yure, por trazerem práticas que se assemelham às das artes circenses.
Regionalidade e identidade amazônica no circo de rua
Yure destaca que o circo de rua na região amazônica possui características peculiares, muitas vezes não percebidas pelos próprios artistas. Bordões e expressões regionais, como "ito ito ito, açaí com peixe frito", são exemplos da forte identidade paraense e amazônica presente na arte circense local.
Apesar da influência europeia e da tradição do circo moderno, que remete aos séculos XVIII e XIX, os artistas de Belém buscam elementos regionais em suas apresentações, utilizando roupas de chita, incorporando a alimentação e as formas locais de falar. "Nós temos que dizer: ‘somos de Belém'. Aí eu falo do açaí, eu falo diferente, eu tenho um chiado diferente. Então a gente acaba tendo essa identidade e, muitas vezes, nós não somos totalmente conscientes dela".
Memórias das artes circenses de rua em Belém oferece um cenário rico e complexo da arte circense de rua na cidade, revelando as camadas de memória, os desafios da marginalização e a força da resistência por meio da identidade regional. É um trabalho que não apenas documenta, mas também celebra a resiliência de uma arte que, ao apresentar convocatória ao público, encanta com o cortejo nas ruas e semáforos, transformando cada intervenção em um ato de reafirmação cultural e social.
Sobre a pesquisa: A dissertação Memórias das artes circenses de rua em Belém foi defendida por Yure Lee Almeida Martins, em 2024, no Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGArtes/ICA), com orientação da professora Benedita Afonso Martins.
Edição: Jéssica Souza |Fotografia: Alexandre de Moraes
Beira do Rio edição 177 - Janeiro a Junho
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