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Documentário registra a memória da cidade de Baião

Publicado: Sexta, 05 de Abril de 2019, 14h39 | Última atualização em Sexta, 05 de Abril de 2019, 14h40 | Acessos: 138

Registro deve chegar às escolas, para as novas gerações 

imagem sem descrição.

Da Redação Foto Silvana Ranieri

“Quando, como hoje, relembro minha infância, imediatamente eles surgem arrastando trapos, descalços uns, mal calçados outros, vozes guturais em alguns, aqui e ali vozes claras, figuras físicas diversas, homens e mulheres, gordos e magros, todos vivendo além de fronteira da razão. Relembro agora os tipos populares de minha terra, no tempo de menina” (Eneida de Moraes).

Quando a escritora Eneida de Moraes escreveu seu livro Tanta Gente, talvez, não imaginasse o quanto a sua obra seria inspiradora. A descrição dos personagens da infância de Eneida despertou no arte educador e ator Stéfano Paixão a ideia de falar da memória afetiva e popular do povo de Baião. Por meio do documentário Velhos Baionaras, Tesouros Vivos, dirigido pelo ator, a intenção é registrar a memória popular de Baião e mostrar que a cidade de mais três séculos tem histórias a contar.

Essas memórias são narradas por pessoas que contribuíram e ainda contribuem para a formação da identidade local. Entre elas, mestres de cultura e pessoas que vivenciaram histórias de encantamento testemunhadas por populares da pequena cidade cravada às margens do rio Tocantins. O real e o imaginário, a magia e o cotidiano, a leveza e a dureza estão presentes nos depoimentos. Além de divulgar a cidade, o trabalho desperta o orgulho de ser baionenses. Como o próprio Stéfano afirma, “são memórias de uma vida toda”.

Aí já dá para perceber o quanto foi árduo produzir este documentário. “A fase de edição do filme foi a mais dolorosa, pois tudo era importante e nos comovia. Ter que cortar isso e aquilo era uma tristeza”, relembra o diretor. O trabalho faz um recorte simples e transita pelo catolicismo popular, e a fé inquestionável em São Raimundo Nonato, padroeiro dos “baionaras”, cruza as portas da Umbanda, chegando até os relatos místicos de encantaria.

Desatrelado da estética, dos conceitos e das escolas cinematográficas, o filme conta com uma produção simples, movida pela liberdade e pelo afeto. O que, segundo o arte educador, deu muito certo, “são histórias lindas, memórias de pessoas que vivenciaram coisas absurdas para o nosso senso comum”.

Histórias costuradas com o coração e a intuição

O documentário tornou-se realidade quando Stéfano Paixão foi contemplado com uma bolsa de Experimentação, Pesquisa e Divulgação Artística, do antigo Instituto de Artes do Pará (IAP), hoje Casa das Artes.

Para o diretor, um dos aspectos mais bonitos foi perceber que as vidas dessas pessoas estão, de alguma maneira, conectadas. “Em um dado momento dos depoimentos, fomos percebendo que elas acabavam por citar umas as outras em diversos episódios de suas trajetórias. Elas já estiveram juntas em alguma ocasião de suas existências. Eu costumo dizer que fomos induzidos pelo coração, pela intuição e por algo maior que costurou essas histórias”, ele acrescenta, emocionado.

O documentário é um restauro da cultura local e um novo olhar dessa cultura para as novas gerações. “Quero fazer esse material chegar às escolas da cidade. Tenho outros projetos que ainda desenvolverei em Baião, porém aguardo a hora certa, pois preciso de aporte financeiro para isso”, afirma Stéfano Paixão.

Baião tem mais de 36 mil habitantes e, assim como outras cidades do interior do Pará, sofre com o descaso do Poder Público em relação à cultura. Com a ausência de políticas culturais, não se valoriza o Boi-Bumbá e o Cordão de Pássaro, expressões da cultura popular local. 

“Baião também não escapou da perversidade do esquecimento e da destruição de nossa memória. Sabemos que muitos registros históricos importantíssimos para o município sumiram, foram extintos durante as mudanças de governo. Essa falta de sensibilidade, de cuidado e de respeito com a memória coletiva do povo de Baião nos coloca à margem da história oficial do Pará”, lamenta o arte educador.

Ed.148 - Abril e Maio de 2019

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