Ir direto para menu de acessibilidade.

GTranslate

Portuguese English Spanish

Opções de acessibilidade

Início do conteúdo da página

Entrevista: Uma arte nova e livre

Publicado: Quinta, 30 de Janeiro de 2020, 19h10 | Última atualização em Quinta, 30 de Janeiro de 2020, 20h14 | Acessos: 1186

Para Laura, os jovens artistas universitários são mais comprometidos

Laura Malosetti Costa
imagem sem descrição.

Por Walter Pinto Foto Alexandre de Moraes

A convite do Programa de Pós-Graduação em Artes, da UFPA, a professora Laura Malosetti Costa, doutora em História da Arte, diretora do Programa de Pós-Graduação em História da Arte Latino-Americana da Universidade de San Martin, Buenos Aires, esteve em Belém participando de uma série de eventos que discutiu, entre outros temas, o desenvolvimento do ensino e da pesquisa em artes, no continente.

A presença da professora em Belém faz parte da estratégia de estabelecimento de intercâmbio entre grupos de pesquisa da UFPA e de instituições estrangeiras, com o apoio do Programa de Cooperação Interinstitucional, das Pró-Reitorias de Pesquisa e Pós-Graduação e de Relações Internacionais da UFPA.

Autora de vários livros e artigos, Laura Malosetti Costa, nascida no Uruguai, radicada em Buenos Aires, diz, nesta entrevista, que os jovens artistas estão rompendo com antigos preconceitos, entre os quais o de negar a possibilidade de fazer nascer uma arte nova e livre, com o suporte das universidades.

Arte e universidade

No século XX, firmou-se uma tradição que diz: a academia mata a arte. Trata-se de um preconceito a respeito da possibilidade de uma arte nova, livre, ser gerada dentro das universidades. Creio que a grande novidade, hoje, são os novos vínculos entre as artes e as ciências – ciências exatas, naturais, humanas e sociais. As ciências, cada vez mais, estão se alimentando das artes; e as artes, das ciências, com vista à produção de novas ideias transformadoras do homem. Neste processo, as universidades têm importante papel a cumprir. Durante muito tempo, a ciência causou desastres inimagináveis ao Planeta. Hoje, vivemos as consequências da ação dessas ciências que cresceram absolutas, acreditando em suas “verdades perfeitas”.

No princípio do século, por exemplo, a ciência afirmava o predomínio dos homens brancos sobre os negros e os índios. Demonstrava isso com leis. Hoje, os artistas denunciam essa ciência, por meio de uma arte que trabalha com as ferramentas da ciência, como o uso de arquivos. Tudo está em processo de produção nas nossas universidades, que também formam artistas. Há artistas dedicados ao estudo do Antropoceno, esse período de cem anos de desastre causado pela ciência, há milhões de anos de evolução natural do Planeta. Então, se há um lugar onde as artes podem ser criativas e críticas, este lugar é a universidade. Aos poucos, a mudança vai se processando no mundo das artes pela ação dos jovens artistas que, ao entrarem no mercado, buscam rejeitar aquela antiga concepção de um mercado garantidor de privilégios aos nomes consagrados do passado e da prática da compra de obras para especulação financeira. Hoje, estamos vivendo um novo tempo. Os jovens artistas já não querem prestar-se a essa especulação. Estão cada vez mais comprometidos com causas sociais, ecológicas, políticas e humanitárias.

Convergência arte e ciência

Uma das mais fortes tradições entre arte e ciência ocorre com a música e as ciências exatas, especialmente a matemática, compreendida pela forte semelhança. Outro exemplo de relação nos deu o artista argentino Tomás Saraceno, com suas máquinas de olhar estrelas. Os vínculos entre a arte e os movimentos sociais são vistos, quase sempre, como política, mas não se restringem a ela, perpassam pela sociologia ou pela história, por exemplo, que são disciplinas que interagem bastante com as artes. Há muitos artistas trabalhando com arquivos, em diferentes partes do mundo. No Brasil, penso em Rosângela Rennó, que trabalha com imagens de arquivos dos trabalhadores mortos na construção da capital federal (Brasília). Há muitas experiências de artistas operando com as mais diferentes formas de ciência.

Argentina: arte crítica

Algo bem interessante está sendo produzido na Argentina, país de forte tradição de pintores extraordinários, desde o século XIX. Um dos grandes nomes desse cenário foi Antonio Berni, um ícone da primeira metade do século XX. Além de excelente pintor, ele dominava outras técnicas, que o faziam enveredar por diferentes formas de arte. Na Argentina, é significativa a escola de pintura em linha direta com a figuração crítica, na qual se destacam, entre outros nomes, Raquel Forner, Carlos Alonso, Marcia Schvartz. Esta tradição de arte crítica não deixou de existir nem mesmo durante a última ditadura (1976-1983), uma das mais sangrentas, responsável pelo desaparecimento de 30 mil pessoas. Foi o momento de consolidação de vínculos entre a arte e o Movimento das Mães da Praça de Maio, que continua a se manifestar, todas as sextas-feiras, em Buenos Aires, exigindo do governo informações sobre filhos e netos desaparecidos. Muitos artistas atuaram e atuam com esse movimento, produzindo uma arte verdadeiramente engajada.

Pós-Graduação, arte e movimentos sociais

Meu programa de pós-graduação não é um programa para artistas, mas, sim, para historiadores, antropólogos, sociólogos. É um programa mais teórico. Na Universidade de San Martin, formamos artistas em nível de graduação. Há, no entanto, na Argentina, universidades que oferecem pós-graduação para artistas. Mas nossa pós-graduação procura estabelecer vínculos entre ciência e arte. Um bom exemplo é Ana Longoni, socióloga e doutora em artes, que trabalha com os vínculos entre arte e movimentos sociais e atualmente atua como curadora em projetos no Museu Reina Sofia, na Espanha. Ela também recuperou a figura de Oscar Masotta, artista conceitual dos anos 1960. Outro exemplo é Andrea Giunta, historiadora e doutora em artes, autora de um livro muito importante sobre vanguarda, internacionalismo e política nos anos 1960, responsável pela formação de muita gente e, hoje, está engajada fortemente no movimento feminista.

Os artistas e a arte engajada

Na Argentina, o marco da vanguarda modernista aconteceu dois anos depois da Semana de Arte Moderna no Brasil. Os vínculos entre artistas dos dois países se consolidaram ao longo da história. O pintor muralista brasileiro Cândido Portinari e a Academia de Belas Artes da Argentina, então dirigida por um pintor muralista, mantiveram um diálogo bem estreito, que se expandiu para a escola muralista mexicana. Inclusive, escrevi livro e artigos sobre a relação entre muralistas brasileiros e argentinos. Nos anos de 1940 e 1950, formou-se uma espécie de rede de intenso intercâmbio entre artistas abstracionistas de Montevideo, Buenos Aires, São Paulo e Rio de Janeiro. Na ocasião, formou-se um movimento abstracionista que buscava dialogar com o mundo. Era uma arte nova, feita por artistas quase todos socialistas e anarquistas, que acreditaram estar contribuindo para a produção de uma nova sensibilidade e de um homem novo. Hoje, essa convergência ainda existe, sobretudo entre o grupo de jovens ativistas da arte, que lutam pela causa ambiental, pelo respeito às diferenças sexuais, pela defesa dos povos oprimidos, pela extinção da miséria nos grandes centros urbanos. Há muitos jovens que colocam sua arte a serviço dessas e de outras causas humanitárias. No Brasil de hoje, chama atenção o engajamento dos jovens artistas na luta pela punição aos assassinos de Marielle Franco. Em Belém, percebi a presença muito forte de discursos políticos na produção dos artistas do Arte Pará 2019. Há vários exemplos que poderia citar: o filme sobre o incêndio na Floresta Amazônica, a performance das sirenes, os trabalhos que afirmam as diferenças. Enfim, propostas que denunciam a violência e buscam estabelecer vínculos sociais mais tolerantes.
História da Arte na América Latina

Na América Latina, o México se destaca como berço dos estudos acadêmicos sobre a História da Arte. Penso que, lá, a pesquisa e a pós-graduação atingiram um altíssimo nível de desenvolvimento. Em Buenos Aires, que tem um perfil eminentemente europeu desde o século XIX, os estudos acadêmicos da História da Arte surgiram na década de 1950, introduzidos pelo crítico de arte Júlio Payró, com o auxílio de outros artistas e pensadores, entre os quais Jorge Romero Brest. No Brasil, esses estudos desenvolveram-se bastante. Conheço grupos de pesquisa e Programas de Pós-Graduação em História da Arte de algumas importantes universidades brasileiras, entre as quais USP, UFRJ, Campinas, UFBA, UFRGS e, agora, UFPA. Penso que eles estão sendo fundamentais para a consolidação da arte como campo de ensino e pesquisa.

Ed.153 - Fevereiro e Março de 2020

Adicionar comentário

Todos os comentários estão sujeitos à aprovação prévia


Código de segurança
Atualizar

Fim do conteúdo da página