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Opinião

Publicado: Sexta, 09 de Agosto de 2019, 17h15 | Última atualização em Sexta, 09 de Agosto de 2019, 18h21 | Acessos: 496

Artigo apresenta a Belém negra que se “amorenou”

Por Flávia Danielle da Silva Câmara Foto Acervo Pessoal

Belém é uma menina morena, segundo a versão que cantam e contam sobre a sua existência. Contudo o último censo do IBGE (2010) aponta para uma realidade em que 76,7% dos paraenses se autodeclararam negros. Para além dos dados, uma conferida ao nosso redor nos coloca diante de uma realidade racial complexa: do mito do indígena e da “morenidade”.

No Brasil, paira a ideia de que somos todos iguais e que vivemos em uma democracia racial. Ideias que dificultam a autoidentificação da pessoa negra, e a identificação por terceiros se dá mediante o racismo como modulador das relações interpessoais e institucionais.

Da degeneração prevista pelas teorias raciais/racistas, nas quais estudiosos acreditavam que a mistura racial levaria ao fim da humanidade pela geração de um ser híbrido e estéril (o mulato), à regeneração pelo culto à mestiçagem, sendo esta orientada pelo ideal de branqueamento, o corpo negro era o incômodo objeto e precisava ser eliminado, seja simbólica, seja fisicamente, pelo mito da democracia racial e pelo ocultamento de outras histórias.

Se não eliminado, é permitido que esse corpo negro exista conforme certas normas de circulação apoiadas em estereótipos negativos, que, além de afastarem a possibilidade de autoidentificação positiva com a negritude, servem como imagens de controle (COLLINS, 2016) construídas pelo (ex)ótico, isto é, definições criadas com base em experiências de terceiros e interesses estratégicos de dominação que tomaram como parâmetro certos aspectos possivelmente ameaçadores para o status quo. Sua função é, sobremaneira, desumanizar e controlar.

É aquela máxima: “se não consegue eliminar, controle”. É um homem que “parece” com um bandido porque é negro; é a mulher que é “até” bonita para uma negra; se a coisa está “ruim”, ela está “preta”. São as estatísticas que apontam o alto índice de encarceramento da população negra, principal alvo da violência policial; é o feminicídio e seu aumento de 54%, segundo Mapa da Violência de 2015. Isto é, são os racismos que não precisam mais do sistema escravocrata para existir, mas permanecem em nossas relações, colocando negras e negros à margem dos direitos e das políticas públicas.

Ao se falar de Amazônia, a primeira impressão que surge no imaginário social é a de uma região dominada por florestas, animais, rios e índios, estes no sentido colonizador de suas existências, que alimentam modos de ser indígenas, limitados por estereótipos que os desumanizam e homogeneízam as diversas nações e culturas que por aqui já existiram e existem. Nesse sentido, além de serem visões tanto romantizadas quanto estereotipadas sobre a região, fica a ideia de que a população negra não é parte constituinte da demografia social amazônida.

Vicente Salles (2004) já escrevera em sua obra O negro na formação da Sociedade Paraense sobre a presença e a importância da população negra para a cultura na nossa região. José Maia Neto, em seu livro Escravidão negra no Grão-Pará (séculos XVII-XIX), apontara para a importância dos povos africanos que foram trazidos para a região. Deste modo, o que pesa, de fato, sobre a região é o olhar colonial que por si só é racista e tende a embranquecer a população, alimentando o “epistemicídio” à medida que outras formas de pensar e caminhos para se produzir conhecimentos estão atados a uma rede de apagamentos históricos.

Assim, é importante que pesquisadores e profissionais comecem a compreender as raízes históricas do racismo e os apagamentos de outras narrativas, de outros corpos e de outras perspectivas não ocidentais para que não continuem sendo permissivos com as diversas formas de atuação do racismo, que, no Brasil, é estrutural, institucional e fenotípico. Negar esse fato e seus sofrimentos significa negar a existência negra em sua diversidade e atravessamentos.

Longe de ser um problema superado, é um problema crônico que deixa marcas profundas nas subjetividades, nas relações interpessoais e institucionais. Na tentativa de branquear a Amazônia (e o Brasil), “amorenou-se”, como diz Zélia Amador de Deus, sem, no entanto, eliminar as experiências do racismo que permanecem e atualizam-se a cada ida a um supermercado, por exemplo.

Flávia Danielle da Silva Câmara – psicóloga, doutoranda pelo PPGP/UFPA, integrante do Grupo de Pesquisa Nós Mulheres e do Conselho Estadual de Políticas de Promoção de Igualdade Racial.

Ed.150 - Agosto e Setembro de 2019

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