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Resenha

Publicado: Sexta, 29 de Março de 2019, 13h57 | Última atualização em Sexta, 29 de Março de 2019, 15h40 | Acessos: 997

"Diálogos com José Saramago", de Carlos Reis

Por Walter Pinto Foto Alexandre de Moraes

Durante três dias de janeiro de 1997, o professor catedrático da Universidade de Coimbra Carlos Reis conversou longamente com o consagrado escritor José Saramago, um ano antes de este se tornar o primeiro autor da língua portuguesa a receber um Prêmio Nobel de Literatura. O resultado dessa conversa foi publicado no livro Diálogos com José Saramago, uma obra essencial para o leitor conhecer aspectos importantes do processo criativo do autor, de seu “pensamento estético e da sua forma de estar na vida como escritor, mas também como cidadão”.

A primeira edição do livro é de 1998. Vintes anos depois, a Editora da Universidade Federal do Pará publicou esta terceira edição, reunindo sete diálogos, uma conversa virtual e um posfácio sobre o livro A estátua e a pedra. O tempo apenas reafirma a atualidade do livro, dada a importância conquistada por Saramago nas letras mundiais e a consolidação de uma obra marcada pela originalidade.

O que lemos é a narrativa de um escritor em construção desde o desabrochar literário em 1947, com Terra do pecado, um livro de tenra juventude, passando por um período de trinta anos ao surgimento do segundo livro, Manual de pintura e caligrafia, até a consagração do estilo inovador e de uma produção prolífica, que nos legou um livro a cada dois ou três anos.

Reis destaca uma reflexão de Saramago que sintetiza o ato de escrever romances: ”dificílimo ato, responsabilidade das maiores, basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias [...]”.

Saramago defende a ideia, que considera banal, de que ninguém escreve se não leu. Diz que aprendeu a ler, ainda menino, nas páginas do jornal do qual viria a ser diretor-adjunto. Revela inspirações em Eça de Queiroz, Almada Negreiros, Camões, Montaigne, Padre Antônio Vieira, Fernando Pessoa e, sobretudo, em Raul Brandão. Demarca o surgimento de seu estilo narrativo no livro Levantado do chão, publicado em 1979.

Segundo o escritor, seu modo de escrever tem raízes na passagem pelo Alentejo e relaciona-o ao “discurso oral, dessa conversa contínua, disso que não está escrito, mas é a comunicação das pessoas umas com as outras”. Explicitando, Saramago fala de um discurso que se move de forma descontraída, “a palavra que vem liga-se à palavra que está, como se eu não quisesse que houvesse nem rupturas nem cortes e que o discurso pudesse ter uma fluidez tal que ocupasse todo o espaço narrativo”.

Saramago conta que passou a se considerar escritor com Memorial do Convento, cuja primeira edição é de 1982, hoje traduzido para 20 línguas e com 50 edições. Foi, então, que descobriu que ter leitores e a pressão deles o levou a continuar a escrever. Mas descarta escrever por necessidade de colocar comida na mesa e oferecer condições à família. “Se não tenho uma razão para escrever um livro, não o escrevo [...] Meus romances foram escritos porque tenho umas quantas questões a resolver que só posso resolver escrevendo um livro”. Neles, o escritor português, como cidadão, coloca um conjunto de dúvidas, de inquietações, de interrogações, diante do tempo, diante da morte, diante do amor, diante da ideia de um Deus existente ou não, diante de coisas que são fundamentais, sejam ou não de caráter político.

Diálogos com Saramago é uma longa entrevista com 178 páginas, editada por blocos temáticos, nos quais Carlos Reis emprega seu amplo conhecimento da obra do escritor português para extrair confissões, considerações, observações relacionadas a questões e temas presentes na escritura saramaguiana.

Carlos Reis observa uma tendência na obra de Saramago: pensar a ficção como uma reinvenção da História ou como uma reinterpretação. Saramago concorda com seu interlocutor. Para ele, a ficção tem legitimidade porque procura dar uma nova versão dos fatos, fatos que nos chegam por meio da História como versões de acontecimentos, nunca como verdades absolutas. “Por que é que a Literatura não há de ter também a sua própria versão da História?”, indaga o escritor.

Segundo Carlos Reis, Diálogos com José Saramago é mais um livro de Saramago do que propriamente seu, mas, inegavelmente, são as questões propostas que conduzem e estimulam o discurso do escritor. Um livro a quatro mãos, valorizado pelo esmero desta terceira edição que a ed.ufpa oferece aos leitores, o mesmo esmero, aliás, empregado nas atuais publicações que levam a sua chancela.

Serviço Diálogos com Saramago. Autor: Carlos Reis. Editora da Universidade Federal do Pará. Venda: Livraria da UFPA.

Ed.148 - Abril e Maio de 2019

Comentários  

0 #1 Eneida Pontes Santo 28-05-2019 01:57
Sempre fui uma curiosa, na arte da leitura,as mais fascinantes leituras,foram de José Saramago!Um amor,eterno que sinto por toda sua obra.
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