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Animais sobrevivem às pressões

Publicado: Sexta, 29 de Março de 2019, 13h55 | Última atualização em Sexta, 29 de Março de 2019, 15h37 | Acessos: 486

Pesquisador descreve diversidade de aves e mamíferos na Terra do Meio

Estudo foi realizado nos anos de 2014, 2016 e 2017, identificando 47 espécies, entre elas o jacu (Penelope pileata) e o catitu (Pecari tajacu)
imagem sem descrição.

Por Nicole França Foto Acervo do Pesquisador

Segundo dados levantados pelo Ministério do Meio Ambiente e pela comunidade científica, o Brasil apresenta a maior biodiversidade do planeta, com mais de 20% do número total de espécies da Terra. Tal dado leva o País ao posto de principal nação entre os países megadiversos. No entanto essa diversidade pode ser prejudicada por problemas como as mudanças climáticas, a caça e o desmatamento. Pensando nisso, Victor Saccardi desenvolveu a dissertação Diversidade de mamíferos e aves cinegéticas na Terra do Meio. A pesquisa foi apresentada no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Conservação do Campus de Altamira e orientada pelo professor Emil José Hernández Ruz.

“A dissertação buscou descrever a diversidade de mamíferos de médio e grande portes e de aves, com enfoque na fauna cinegética (espécies que são caçadas para alimentação) de três unidades de conservação federais. Para isso, foram documentadas a riqueza e a estrutura dessas comunidades, gerando estimativas de densidade, abundância e tamanho das populações”, afirma Victor Saccardi.

A área analisada foi a região da Terra do Meio, localizada no centro-sul do Pará. A região é composta por um conjunto de áreas protegidas que apresentam diversas pressões de degradação e são habitadas por populações tradicionais indígenas e ribeirinhas. Para a coleta de dados, foram escolhidas três unidades de conservação federais da região, geridas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), sendo elas a Estação Ecológica da Terra do Meio, o Parque Nacional da Serra do Pardo e a Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio.

O estudo teve uma grande relevância, uma vez que a área é pouco estudada em razão das dificuldades logísticas, da distância e do tamanho das áreas. Segundo Victor Saccardi, a dissertação trouxe as primeiras informações sobre a diversidade de aves e mamíferos coletadas em campo, na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio.
“A pesquisa trouxe, primeiramente, uma informação básica, que é saber quais são as espécies presentes nas áreas. O segundo passo é entender qual o atual estado de conservação dessas espécies e como estão suas populações. Em comparação com os outros estudos conduzidos na região, este trabalho foi capaz de identificar o maior número de espécies, demonstrando a importância de utilizar diferentes métodos que se complementam, buscando abranger a diversidade de hábitos dessa fauna”, destaca Victor Saccardi.

Três anos de estudo e 835 quilômetros percorridos 

A pesquisa foi realizada nos anos de 2014, 2016 e 2017. Para a análise das áreas selecionadas, foram implantadas três trilhas de cinco quilômetros, demarcadas e georreferenciadas a cada 50 metros, em cada unidade de conservação. No total, considerando somente as trilhas, foram percorridos 835 quilômetros. A partir disso, o pesquisador pôde identificar 47 espécies. Algumas dessas espécies são: Catitu (Pecari tajacu), Anta (Tapirus terrestris), Macaco-Cara-Branca (Ateles marginatus), Porcão (Tayassu pecari) e Onça-Pintada (Panthera onca).

O estudo coletou dados, como a espécie, o número de animais, a hora e a distância em relação às trilhas. Tal técnica foi utilizada, posteriormente, nas estimativas populacionais das espécies. “Esta técnica é conhecida como levantamento por transecção linear, permitindo obter estimativas populacionais, mesmo sem detectar todos os indivíduos de uma população. Para as estimativas populacionais, também foi utilizado o Programa Distance 7.0”, explica Victor Saccardi. O pesquisador coletou, ainda, dados indiretos sobre as espécies, como rastros, vestígios e vocalizações. Além da observação da fauna local, o estudo também levantou informações sobre a ocorrência de caça nas áreas.

Foi realizada, ainda, uma comparação entre as estimativas de densidade, as quais não evidenciaram grandes diferenças entre as três unidades de conservação, de forma que mesmo as áreas com maior presença de caça não apresentaram diferenças significativas quando comparadas com as áreas de menor presença de caça. Sendo assim, as três unidades de conservação são bastante semelhantes na estrutura da comunidade de mamíferos e aves cinegéticas.

No entanto o pesquisador ressalta que essas análises precisam ser feitas com cautela. “Apesar do grande esforço amostral e dos quilômetros percorridos ao longo dos três anos na presente pesquisa, respostas concretas e robustas para evidenciar diferenças entre as áreas e indicar consequências sobre as populações naturais necessitam de um esforço amostral elevado, aumentando-se o número de trilhas, os quilômetros percorridos e a amostragem ao longo do tempo, durante mais anos”, avalia.

Victor Saccardi afirma que, mesmo após a conclusão da dissertação, as pesquisas continuam. “Em 2018, embora não tenha sido possível realizar coletas em todas as trilhas, novas informações entraram no banco de dados e novas análises poderão ser feitas, aumentando a confiança e a robustez das análises”, informou.

Unidades de conservação garantem bem-estar de todos

O pesquisador salienta que estudos sobre a biodiversidade têm grande relevância para a conservação da região. “A pesquisa envolve diversas espécies ameaçadas de extinção, as quais vêm apresentando um declínio populacional preocupante no Brasil em virtude das ameaças ambientais que se agravam no País. E essas populações silvestres são importantes para a manutenção das populações tradicionais, especialmente ribeirinhas, que habitam a região”, alerta.

“Os estudos sobre a abundância das espécies são fundamentais para entender os padrões de estrutura e as respostas das comunidades frente a diferentes graus de perturbações de longo prazo, como as mudanças climáticas, ou de curto e médio prazos, como a caça e o desmatamento. Entender os efeitos das perturbações sobre a estrutura da comunidade é essencial para garantir a persistência das espécies e a conservação dos ecossistemas”, declara Victor Saccardi.

Por fim, o pesquisador destaca a necessidade de áreas protegidas, como as unidades de conservação. “Essas áreas são fundamentais para a sobrevivência do homem, mesmo que grande parte da população viva distante das florestas. As áreas naturais protegidas têm papel fundamental na manutenção e na regulação do clima, na produção de alimentos e no bem-estar das pessoas, de maneira geral”, conclui.

Ed.148 - Abril e Maio de 2019

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