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Moderna, mas nem tanto

Publicado: Sexta, 01 de Fevereiro de 2019, 13h42 | Última atualização em Quarta, 06 de Fevereiro de 2019, 17h00 | Acessos: 496

Caricaturas satirizam contradições da cidade de Belém, nos anos 1920

Facilmente se percebe mudança no traço do cartunista entre 1921 e 1924. Já as condições urbanas da cidade permaneceram as mesmas.
imagem sem descrição.

Por Walter Pinto Caricaturas Andrelino Cotta

O campo da história social da Arte está em franco crescimento dentro dos estudos historiográficos na Universidade Federal do Pará. Em dezembro passado, um seminário deu mostra disso ao apresentar onze estudos em andamento, entre monografias, dissertações e teses, no Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia (PPGHist/IFCH). A maior parte desses trabalhos centra o olhar sobre a obra de artistas plásticos ligados à pintura. Mas a caricatura também vem interessando aos pesquisadores, como fonte possível para apreensão do vivido.

Um desses trabalhos buscou ler nas imagens produzidas pelo caricaturista Andrelino Cotta a expressão de Belém na década de 1920. Cotta foi um dos maiores nomes da caricatura paraense da primeira metade do século XX. Coube ao historiador Raimundo Nonato Castro estudá-lo em tese defendida no PPGHist, em novembro passado, sob orientação do professor Aldrin Moura de Figueiredo. O artista, que nasceu em Cametá e fez carreira na imprensa da capital, era também pintor, compositor e músico.

Tendo por título O lápis endiabrado: Andrelino Cotta e a caricatura do Pará nos anos 1920, a tese, além de discutir as representações sobre a cidade de Belém, volta-se para outras questões, entre as quais o próprio espaço midiático no qual as caricaturas de Cotta estão inseridas. Seu primeiro emprego como caricaturista foi na Revista A Semana, depois publicou charges no Jornal O Estado do Pará. Por fim, está entre os jornalistas e intelectuais que produziram a Revista Belém Nova.

Nonato Castro conta que sua aproximação do tema ocorreu ainda no mestrado, durante a pesquisa sobre a tela “A conquista do Amazonas”, de Antônio Parreiras. No setor de obras raras da Biblioteca Pública Arthur Vianna, o olhar do então pós-graduando foi direcionado para uma caricatura publicada em A Semana, mostrando uma cena da periferia da cidade, de abril de 1921, na qual um trabalhador, provavelmente da limpeza urbana, tenta drenar o alagado em frente das casas, acossado por um ameaçador jacaré.

A cena, aos olhos de Nonato Castro, mostrou-se intrigante por apontar para um paradoxo. A revista A Semana era “ligada aos grupos políticos da sua época” e produzida para o deleite da elite da capital, leitores que residiam nas zonas mais valorizadas da cidade. Falava com entusiasmo dos bailes carnavalescos, publicava fotografias de pierrôs e colombinas, elogiava a segurança pública feita por guardas bem vestidos. A charge de Cotta, trazendo a periferia para aquelas páginas e, com ela, os jacarés, as onças, a lama, o aguaceiro e a falta de água nas torneiras, contradizia os valores que a publicação defendia.

Cotta: cametaense e sem formação em Arte

Publicada na página central, a charge induz o autor da tese a pensar no destaque dado a Andrelino Cotta pelos editores da revista. Mesmo ele sendo ainda um jovem recentemente egresso do interior, vindo da cidade de Cametá, sem uma formação acadêmica específica na área das artes plásticas, como indicam as raras informações bibliográficas encontradas sobre ele.

Nonato Castro transformou o campo de tensão entre a linha editorial e a caricatura de Cotta no problema historiográfico da sua tese. Os traços da cidade submersa em águas fétidas, contrariando a mensagem editorial de uma cidade que se pretendia moderna, apoiada em fotografias de grupos sorridentes e bem vestidos.

O cametaense Andrelino Cotta nasceu em 1896. Em 1919, ele já está em Belém, residindo na antiga Vila do Pinheiro, atual Distrito de Icoaraci. Lá ele deu início a uma das suas carreiras paralelas ao trabalho de caricaturista, a de professor, lecionando Desenho numa escola que criou.

Cotta era um caricaturista autodidata. Entrou para a equipe de A Semana aos 25 anos, provavelmente levado por Pedro Bittencourt, que o apresentou aos proprietários da publicação. Uma rara fotografia sua, publicada na revista em 2 de julho de 1921, mostra-o jovial, trajando terno escuro, gravata borboleta e chapéu no mesmo tom.
Detendo-se sobre as suas charges, percebe-se um amadurecimento de linhas, passando de traços primitivos, característicos da Arte Naïf, para um desenho estilizado, limpo, pessoal, com alguma inspiração nos contemporâneos J. Carlos e Belmonte, dois dos grandes nomes da caricatura no Brasil, na primeira metade do século XX. Seus temas recorrentes são os problemas urbanos da cidade, provavelmente vivenciados pelo artista em seu deslocamento diário da periferia para o centro. Mas Cotta também produziu enorme quantidade de desenhos sobre temas carnavalescos, alguns deles transformados em vinhetas por anos a fio.

“Boa parte do trabalho do Cotta é formada pela caricatura sobre o contexto em que estava inserido. O que desenhava era o que via em Belém. E o que via eram os problemas dos bondes, a carestia de vida, a precariedade do abastecimento de água, a exploração econômica, os constantes alagamentos da via pública. Seu olhar crítico vai ao cerne das imagens para mostrar o cotidiano da cidade. E faz isso de forma desafiadora: dentro de uma revista que tinha uma proposta diametralmente oposta à mensagem dos seus desenhos”, avalia Nonato Castro.

Trabalho de “assombrosa qualidade” e preço bem baixo

Autor da ilustração de capa, de charges e de caricaturas de personalidades da vida local, é possível que Andrelino Cotta recebesse pagamento por seu trabalho. O pagamento podia ser também de forma indireta, haja vista os proprietários de A Semana permitirem que montasse um ateliê na redação e anunciasse a produção por encomenda de pinturas e caricaturas. Suas caricaturas são descritas como de “assombrosa qualidade e preço bem baixinho”. Nonato observou que, “nas caricaturas dos membros da elite, o artista exagerava pouca coisa, o que era bem visto pelos redatores por não deixar os caricaturados numa situação humilhante”.

Cotta não parou de publicar em A Semana nem mesmo quando passou a atuar no Jornal Estado do Pará e na Revista Belém Nova. Nos novos espaços, o trabalho do artista estava em sintonia com as linhas editoriais das publicações, ambas de oposição aos governos Souza Castro e Dionísio Bentes. “Não havia, nesses casos, nenhuma contradição. A caricatura crítica do artista era mais que bem-vinda”, afirma o pesquisador.

Apesar de ter deixado um número grande de charges na imprensa da época, a pesquisa sobre Andrelino Cotta foi dificultada pela ausência de informações pessoais. No centro de Cametá, Cotta é uma das personalidades homenageadas na Praça dos Artistas, mas a memória local praticamente se resume a isso. Nonato Castro buscou entrevistar parentes, encontrar documentos cartoriais e vasculhar a memória de pessoas que o conheceram, mas o trabalho resultou pouco animador.

Partiu, então, para a bibliografia, encontrando informações sobre o artista nos artigos publicados em A Província do Pará, por Vicente Salles, que destaca as facetas de caricaturista, pintor, músico, afinal, o artista era também violinista. Nos espaços frequentados por Cotta, Nonato Castro encontrou mais algumas pistas. A Semana foi a principal fonte, com informações sobre data de nascimento, chegada a Belém, grupo de amigos que formou e percurso na cidade.

Além do trabalho na imprensa local, Cotta teve destacada atuação como ilustrador de revistas de cordéis da Editora Guajarina. Também fez ilustrações para capa de discos. Parte desse material encontra-se no acervo do historiador Vicente Salles, pertencente ao Museu da UFPA. É provável que a produção do artista seja muito maior, haja vista uma expressiva parte dela não estar assinada. O exame do traço, porém, indica a autoria.

Muitas das caricaturas de Cotta são facilmente entendidas à primeira vista. Mas várias exigiram de Nonato Castro uma pesquisa mais profunda na grande imprensa da época. Ao proceder assim, o pesquisador pôde observar o seu contexto e a inserção do artista no debate político, social e urbano de seu tempo.

Ed.147 - Fevereiro e Março de 2019

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