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Entrevista: Internacionalização de sul a sul

Publicado: Sexta, 01 de Fevereiro de 2019, 13h38 | Última atualização em Sexta, 08 de Fevereiro de 2019, 18h16 | Acessos: 995

Para Varela, UFPA só tem a ganhar na cooperação com países africanos

Odair Barros Varela
imagem sem descrição.

Por Walter Pinto Foto Alexandre de Moraes

Nascido em Cabo Verde, o professor Odair Barros Varela esteve em Belém realizando cursos nos campi de Cametá e Castanhal. Professor da Universidade de Cabo Verde, ele é licenciado em Relações Internacionais, mestre e doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra e pós-doutor pela Université du Québec à Montreal. Sua carreira acadêmica soma publicações em livros e revistas e participações em conferências nacionais e internacionais, principalmente sobre os temas pós-colonialismos em África, poder e conhecimento, Estado moderno, governança e migrações internacionais. Nesta entrevista, ele fala sobre alguns desses temas e chama atenção para a virada diplomática brasileira e possíveis consequências para as universidades públicas.

Comunidade dos Países de Língua Portuguesa

Apesar de Portugal ter tomado a iniciativa de criar uma comunidade lusófona, considerando como padrão linguístico o português de Portugal, paulatinamente o Brasil passou a dominar o processo de acordo ortográfico por possuir uma população de mais de 200 milhões de pessoas e um mercado livreiro mais forte. A CPLP surgiu de um ímpeto muito mais linguístico do que qualquer outro. No fundo, tentou-se criar uma identidade lusófona baseada apenas em uma categoria identitária, a língua. Então alguns povos africanos, como Angola e Moçambique, começaram a reclamar de pertencerem à comunidade somente por esse viés, apesar de ligarem-se a outras culturas não lusófonas. A questão da concertação diplomática, um dos principais objetivos da comunidade, não funciona quando há grandes crises internacionais. Após o atentado de 11 de setembro, por exemplo, a CPLP não firmou uma posição própria, cada país membro tomou uma posição. Portugal ficou ao lado dos Estados Unidos, da França e da Grã-Bretanha O Brasil ficou contra. Outro exemplo: a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, um país que não é de língua portuguesa, foi aceita, mas com críticas ao regime autoritário. Nesse caso, pesou mais o interesse comercial ditado pela questão da indústria petrolífera da Guiné. No caso do Brasil, a forma autoritária como ocorreu o afastamento da presidente Dilma não teve nenhuma repercussão na Comunidade. A CPLP continua sendo uma reunião de líderes, de primeiros-ministros e de presidentes, não desce às massas. As pessoas não sabem o seu significado. Penso que, para ela ser uma comunidade de fato, deve colocar em prática a concertação diplomática e identificar-se com os anseios da população em questões como livre circulação de pessoas, bens de capital, isenção de vistos entre países, entre outras.

Pan-Africanismo

O Pan-Africanismo é uma teoria de integração de nível continental, com origem na diáspora africana, que se tentou efetivamente implementar a partir da independência de Gana, em 1957, liderada pelo presidente Kwame Kkrumah. A ideia era estabelecer a união do continente por meio da criação dos Estados Unidos da África, algo semelhante aos Estados Unidos da América do Norte, em que houvesse a integração do mercado, com união aduaneira para superar as consequências do processo de colonização. Infelizmente, houve muitos obstáculos e não se conseguiu implementar essa teoria integracionista, nem como ideologia política, nem como sistema político. Entre os fatores do insucesso, está o neocolonialismo, sobre o qual Krumah havia alertado. As potências europeias criaram muitos problemas para as lideranças africanas, incentivaram golpes de Estado e até patrocinaram o assassinato de líderes políticos. Mais de 80 deles morreram, o mais emblemático foi Patrice Lumumba, primeiro ministro do Congo. Outro fator foi a Guerra Fria. O confronto entre os blocos estadunidense e soviético e a procura por zonas de influência fizeram com que golpes de Estado ocorressem na África. Os EUA procuraram impedir que as antigas colônias europeias pudessem cair em mãos soviéticas. Outro fator foi a autocracia das lideranças, as quais, no poder, tornaram-se ditadoras. Eu costumo dizer que foi um conjunto de fatores externos e internos que não permitiu o avanço do pan-africanismo.

Estudos Pós-Coloniais

Fiz graduação em Relações Internacionais, em Coimbra, mestrado em Sociologia e Ciência Política e um doutorado interdisciplinar que abrangeu essas três áreas. Durante o doutorado, entrei em contato com os estudos pós-coloniais. Comecei a me interessar por esse campo de estudo que permite que você tenha uma visão crítica sobre seu próprio campo de atuação, como ver as Ciências Humanas como saberes eurocêntricos, coloniais, criados para ajudar as potências no projeto colonial. A Ciência Política como ferramenta de Estado para implementar o sistema de colonização, a Antropologia para ajudar a estudar e a controlar as populações. Então, basicamente, aquilo que comecei a pesquisar desde 2004 são as continuidades coloniais em Cabo Verde, na África. Aproveitei também para estudar outras realidades da Ásia e da América Latina. Os estudos pós-coloniais observam as continuidades coloniais, com uma perspectiva analítica, não historiográfica nem cronológica. Do ponto de vista historiográfico, já não há mais colonialismo na África, mas subsistem continuidades coloniais de saber e poder. Então há essa semelhança entre América Latina e África, que é a persistência da colonialidade. O mesmo acontece com as populações ameríndias e afro-americanas nos Estados Unidos e no Canadá. Em relação ao poder, conseguimos a independência política, mas, em termos econômicos e sociais, ainda há continuidades coloniais. Como estudioso dos estudos pós-coloniais na África, consigo comparar o peso dos autores africanos nesse campo, com o peso dos autores europeus, americanos e asiáticos. Apesar das contribuições dos autores africanos a partir de 2005, os autores anglo-saxões ainda dominam esse campo. Então, defendo, de forma paradoxal e até curiosa, a necessidade de descolonizar os próprios estudos descoloniais.

UFPA-Universidade de Cabo Verde

Fui convidado para falar sobre as experiências dos estudos pós-coloniais na África e suas relações com a América Latina nos Campi Universitários de Cametá e Castanhal, como parte de um convênio entre a UFPA e a Universidade de Cabo Verde, o qual é desenvolvido pelos professores do Instituto de Ciências da Educação da UFPA. Em 2017, vim pela primeira vez ao Pará. Estive em Abaetetuba, por meio do Programa de Pós-Graduação em Cultura. Tem sido sempre uma experiência muito rica, muito diversa, porque, comparando as realidades destas cidades com as africanas, percebo muito mais semelhanças do que diferenças. Elas pertencem a países que estão na semiperiferia da ciência, segundo o mundo acadêmico ocidental do Norte, que ainda domina a produção de conhecimento acadêmico. Muitas vezes, por estarmos nessa semiperiferia, por sermos originários de países que foram colônias europeias, ocorre a tendência de olhar somente para as cidades do Norte. Temos que inverter essa lógica. A via da internacionalização tem que passar pelo Sul. Isso não significa deixar de lado as pesquisas do Norte, mas é preciso reforçar a cooperação Sul-Sul. A UFPA teria muito a ganhar numa cooperação com os países africanos de língua portuguesa, como Cabo Verde, Angola e Moçambique.

Política externa e universidades

O Brasil estava inserido numa lógica internacional interessante, com apoio às questões ambientais, à proposta de criação de um banco dos BRICS, uma espécie de substituto ao FMI, e lutando por mais democracia no Conselho de Segurança da ONU, com aumento no número de membros e participação de países africanos. A política externa havia dado um salto. Mas, se seguir a linha de Donald Trump, fará opção pelo protecionismo, voltará para si próprio e não olhará mais o mundo. Se você não olha para o mundo, ele cai em sua cabeça. Em relação à pesquisa científica, a preocupação é grande, porque há possibilidade de as universidades públicas serem privatizadas. As federais e as estaduais poderão sofrer cortes orçamentários. Os programas vão passar por dificuldades, inclusive os de intercâmbio internacional. O Brasil é uma potência mundial, também porque possui boas universidades públicas. É uma grande conquista brasileira, não pode ser ameaçada. Se você coloca a sociedade ao serviço das empresas e privatiza tudo ao sabor de quem tem capital, escraviza completamente a sociedade. A consequência imediata dessa ação é o fim da soberania nacional.

Ed.147 - Fevereiro e Março de 2019

Comentários  

0 #1 lourenço 14-02-2019 16:18
Odair Varela, :-)
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