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Resenha

Publicado: Sexta, 05 de Outubro de 2018, 14h29 | Última atualização em Segunda, 08 de Outubro de 2018, 13h39 | Acessos: 56

Livros de leitura e civilidade europeia

Por Walter Pinto Foto Alexandre de Moraes

Resultado de uma pesquisa desenvolvida como tese no Programa de Pós-Graduação em Educação, da UFPA, a obra Livros escolares de leitura da Amazônia: produção, edição, autoria e discursos sobre educação de meninos, civilidade e moral cristã, de Raimunda Dias Duarte, concentra boa parte de sua atenção à análise do “Compêndio de civilidade cristã”, escrito pelo bispo Dom Macedo Costa, que tinha por objetivo transformar a criança para o mundo civilizado.

O Compêndio do bispo, que enfrentou a maçonaria e marcou época na história do Pará, foi publicado pela primeira vez em 1880. Trinta e cinco anos depois, houve uma segunda edição. A leitura que a pedagoga Ray Duarte faz dele reforça o entendimento de que a sociedade paraense da virada do século, até quando se preocupava com a educação infantil, aspirava a um modelo civilizatório europeu, como ressalta Carlota Boto, professora de Filosofia da Educação da USP, na apresentação do livro.

O Compêndio de civilidade Cristã é uma das obras analisadas pela autora enquadradas como livro didático de leitura sobre a Amazônia, ou seja, trata-se de livros, produzidos na região, entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX, voltados para o ensino da leitura na educação primária.

A autora procedeu a um levantamento dos livros de leitura no catálogo de obras raras da Biblioteca Pública Arthur Vianna, em sebos virtuais e nas obras de autores como Theodoro Braga e Eidorfe Moreira, encontrando 142 obras de diferentes gêneros discursivos. Autores como Alberto Pimentel (vinte títulos), Marques de Carvalho (onze), Juvenal Tavares (nove), Raul de Azevedo (nove) e Eustachio de Azevedo (oito) estão entre os mais férteis autores do recorte definido pela autora.

Ray Duarte observa que, dos 142 livros de leitura compilados, 126 pertencem ao gênero literário, número correspondente a 88% do total. “Muitas destas obras literárias paraenses não visavam, originalmente, ao contexto escolar, sendo utilizadas para o deleite, a fruição e a ampliação do contato do leitor com o mundo, não podendo ser caracterizadas como livros didáticos. No entanto os editores, ao destinarem esses textos literários à escola a fim de auxiliar o processo de ensino de disciplinas escolares, tornaram-nos livros didáticos”, explica.

Dividido em cinco capítulos, o estudo de Ray Duarte, que é professora do Campus de Abaetetuba da UFPA, dedica o primeiro às questões de teoria e método. A base teórica apoia-se na Análise Dialógica do Discurso, postulada pelo Círculo de Bakhtin, e na História cultural, que tem, entre as principais referências, o historiador francês Roger Chartier. O capítulo é construído como um diálogo entre os dois autores, conduzido por meio da percepção da autora, que faz questão de explicitar que os discursos representados no objeto de estudo não a eximem de deixar as suas impressões no trabalho.

No segundo capítulo, a obra reconstrói a história do livro didático no Brasil, dentro do recorte que vai do Império à República. Observa-se que o caráter nacionalista que impregnou a França no século XVIII, por meio da ideologia Iluminista, se faz notar no Brasil no final do século XIX, quando os intelectuais brasileiros defenderam um “livro didático brasileiro pelo assunto, pelo espírito, pelos autores trasladados, pelos poetas reproduzidos e pelo sentimento nacional que o anime”, como expressou o crítico José Veríssimo nas páginas de “A educação nacional”.

A vida e a obra de Antonio Macedo Costa e sua contribuição intelectual à educação do Pará são estudadas no terceiro capítulo. O leitor se familiariza com o bispo ultramontano baiano que marcou época no Pará por suas posições polêmicas, que buscavam demarcar a autonomia da Igreja na esfera dos negócios eclesiásticos. Dom Macedo escreveu seis livros, entre eles: “Deveres da família”, “Amazônia: meio de desenvolver sua civilização” e o “Compêndio de civilidade cristã”, que a autora analisa no quarto e no quinto capítulos, sob a ótica dos discursos inscritos como objeto físico e como texto.

A autora defende a tese de que os discursos construídos sobre a civilidade que ordenavam a educação de meninos paraenses, segundo o Compêndio do bispo, “são atravessados por uma ideologia que legitimava as ideias defendidas pela elite brasileira, tencionando imprimir nos meninos uma ideia de civilidade que valorizava a produção cultural importada da Europa”, numa tentativa de afastá-los dos usos e costumes da cultura paraense.

Serviço: Livros escolares de leitura da Amazônia: produção, edição, autoria e discursos sobre educação de meninos, civilidade e moral cristã. Autora: Raimunda Dias Duarte. Ed. Pontes Editores. 365 páginas. Venda direta com a autora (rayduarte@ufpa.br).

Ed.145 - Outubro e Novembro de 2018

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