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Entrevista: Um artista em movimento

Publicado: Sexta, 05 de Outubro de 2018, 14h15 | Última atualização em Segunda, 08 de Outubro de 2018, 13h39 | Acessos: 73

Das andanças pelo mundo às cores de Belém, tudo inspira Roger Mello

Roger Mello
imagem sem descrição.

Por Walter Pinto Foto Alexandre de Moraes

A convite da EDUFPA, o designer Roger Mello esteve em Belém para o lançamento de seu mais recente livro, Clarice. Nascido em Brasília, em 1965, o artista reside no Rio de Janeiro, mas passa grande parte do ano em diversos países, cumprindo uma extensa agenda de ilustrador, expositor e membro de júris internacionais. Formado pela Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, ele começou sua carreira trabalhando com o veterano cartunista Ziraldo.

A carreira de Roger Mello é pontuada por diversos prêmios, entre os quais dez Jabutis e o Grande Prêmio Internacional da Fondation Espace Enfants, na Suíça. Nesta entrevista, ele conta um pouco da sua trajetória e fala da sua paixão por Belém, cidade que lhe revela cores mágicas.

Formação de ilustrador

Foi uma construção que começou muito cedo, como leitor. Eu não lia só livros. Quando criança, gostava de desenhos animados e de histórias em quadrinhos. Há pessoas que questionam se as histórias em quadrinhos são livros. Eu as considero um tipo de livro. Os quadrinhos foram, para mim, tão importantes quanto o próprio Carybé, que ilustrava os livros do Jorge Amado. Também curti muito os desenhos do Ziraldo. Nasci em Brasília, então a arquitetura do Niemayer e os desenhos sinuosos dos jardins de Burle Marx foram, para mim, uma subversão visual. É tudo muito orgânico ou muito contestador. Athos Bulcão e Maria Martins também me influenciaram muito.

O trabalho com Ziraldo

Trabalhar com o Ziraldo foi maravilhoso! Ele é um sábio. Aparentemente, eu não tenho nada a ver com o trabalho dele. Somos de escolas muito diferentes. Mas eu vejo tanta coisa dele no meu trabalho, no modo de pensar, apesar de não parecer à primeira vista. A geração dele tinha um jeito de pensar, cada um com a sua individualidade. É a geração do Pasquim, do Niemeyer, do Anísio Teixeira, do Darcy Ribeiro. Todos falavam muito, às vezes falavam coisas e, no outro dia, mudavam de ideia. Eu acho isso perfeito. É uma geração de generalistas, que abordam qualquer tema. Ziraldo, por exemplo, sabe que a fruta-pão foi espalhada pelo mundo, inclusive no Brasil, para acabar com a fome. Ele sabe opinar sobre teatro, política, literatura infantil, sobre qualquer tema. Se não souber, ele inventa e tá ótimo! É tudo um exercício ficcional que destaca o fato de ele ter sempre uma opinião. Ter trabalhado com ele foi um grande aprendizado em várias frentes.

Prêmios nacionais e internacionais

Eu fui premiado com dez Prêmios Jabuti no Brasil, tanto como autor de texto, como autor de ilustrações. Antigamente, o prêmio tinha muitas categorias. Hoje, eu sou hors-concours. Meus temas vêm da música, do carnaval. Trabalho também com o teatro. Eu dou conta de fazer essa coisa toda não sei nem como, porque, na verdade, sou uma pessoa muito ‘esculhambada’. Não sou organizado, não tenho estúdio, não tenho hora marcada para trabalhar e viajo muito. No ano passado, estive em 17 países. Gosto de trabalhar em movimento, assim, no nomadismo.

Exposições

Participei de uma exposição no Centro de Artes de Seul, na Coreia, a qual registrou a marca de 1.300 visitantes por dia. Seul tem muitos centros culturais, cada vez que você vai lá, vê um museu de arte contemporânea novo. Eles dão muito valor à arte, porque é uma coisa que tá no sangue: o avô já admirava a arte, então o neto vai e faz questão de levar o avô. É algo que eu nunca observei na Europa, mas vejo na China, no Japão e na Coreia. A Ilha de Nami, na Coreia, é um lugar paradisíaco, ligado à natureza, quase na fronteira com a Coreia do Norte. Eles investem em arte, em literatura infantil e se tornaram os patrocinadores do Prêmio Hans Christian Andersen [importante prêmio da literatura infantojuvenil]. Um dia, eles convidaram 33 países para participar de um livro sobre a paz. Do Brasil, participamos eu e a Luciana Sandroni. Ela fez o texto; eu, as ilustrações. Três anos depois, fui o primeiro latino-americano a ganhar o Hans Christian Andersen de ilustração. Isso levou os organizadores a promoverem uma grande exposição na Ilha de Nami e em Seul para saudar o que chamaram “estilo Brasil-Coreia”. A partir daí, não parei mais de ir à Coreia. Até virei júri do prêmio. Em 2018, serei o presidente.

O estilo, segundo o autor

Eu me referenciei muito e sempre me referenciarei na dita arte popular, embora não goste desse nome. No Brasil, temos artistas com o seu universo próprio e são referência não só para mim. Vitalino, por exemplo, foi uma referência para os artistas da Semana de 22 e continua sendo para mim. De vez em quando, há uma volta a essa arte, que não tem nada de Naif, porque não é ingênua, é muito complexa. Não tem nada de primitiva, é extremamente sofisticada. Trabalho com papel e outros suportes. Uso tinta de parede no papel. Um dia, um amigo me falou: - Tu usas umas cores que a gente aprendeu que não podia usar. E eu falei: - Poxa, esse é o melhor elogio que eu já recebi!

Formação acadêmica

Minha formação foi em Desenho Industrial e acho que foi a melhor coisa que aconteceu comigo. O Desenho Industrial é o Design atual. Ele abarca o desenho de produto, do copo ao carro, até a própria programação visual. O desenho de produto está tão próximo da programação visual quanto a arquitetura está próxima das artes plásticas. Acho que tudo é a mesma coisa. Muitos colegas que cursaram Desenho Industrial comigo se sentiram motivados a buscar outras expressões de Arte, como a música e o teatro. Eu fui para a ilustração gráfica.

Ilustração de livros

Ilustrei livros de autores consagrados. O primeiro foi de Guimarães Rosa e acho que não ficou à altura dele. Ilustrei Zélia Gatai, Graciliano Ramos, Ana Maria Machado, Ligia Bojunga. Fiz parceria com a Regina Iolanda, minha ídola. Ilustrei muitos autores, vou ser injusto aqui se eu esquecer alguém. Ao todo, ilustrei mais de cem livros.

Belém do Pará

Vim para a Feira Pan Amazônica e aproveitei para ficar mais um tempo. Sou apaixonado por tudo aqui de cima. Pará e Amazonas são Estados que amo. A cidade de Belém é única. Tem charme, tem diversidade, tem muitas fontes formadoras, tem tudo do que eu gosto. As frutas, que, além do sabor, são muito coloridas! As pessoas dizem que são as cores do Brasil. Nem todos os ilustradores trabalham a paleta saturada, mas eu não consigo trabalhar com cor pastel. Acho que, no Brasil, nós sabemos trabalhar com as cores, mas isso não quer dizer sair botando qualquer cor. Isso é algo que eu aprendi observando a própria natureza. Você vê uma planta, uma orquídea, um tucumã, uma palmeira, as cores são escandalosas, saturadas pela incidência de luz, então, é preciso captar essa luz. Por isso Belém é uma grande referência para mim. O Ver-o-Peso é essa mina de cores, tudo isso me inspira muito.

Clarice, o último livro

Lancei na Feira Pan-Amazônica este livro, ilustrado por meu sobrinho. Achei que fosse importante uma pessoa de outra geração ilustrá-lo, porque é um livro sobre a minha família. Clarice é uma menina. A história se passa em Brasília, no olho do furacão. Claro que tem relação com a Clarice Lispector. Há um momento em que ela fala sobre a cidade de um jeito Clarice de ser. Na verdade, ela gostou da cidade, da estranheza da cidade. Ela diz: “Se eu digo que a cidade parece com a minha insônia, as pessoas não entendem isso como um elogio. Mas é na insônia que eu sou eu”. O livro é uma ode a Brasília, num tempo de ditadura. Na literatura infantil, a palavra desaparecimento é, muitas vezes, trabalhada como elemento mágico. No nosso livro, ganha um sentido fantástico na realidade. São os adultos que desaparecem, não é uma época de as pessoas chegarem, é uma época de as pessoas irem. Normalmente, esse desaparecimento está ligado à tortura e à morte. Enfim, trabalhei essa dimensão na infância, a partir de coisas que vi, como minha tia jogando livros no lago, amarrados com pedra, para que não boiassem de volta. Ela não era de esquerda, mas, por gostar de livros, tinha um lado subversivo.

Ed.145 - Outubro e Novembro de 2018

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