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Resenha: Um marco cultural

Publicado: Sexta, 17 de Fevereiro de 2017, 17h03 | Última atualização em Sexta, 17 de Fevereiro de 2017, 18h52 | Acessos: 1802

Vitor Sales Pinheiro apresenta a Coleção Diálogos de Platão

Por Victor Sales Pinheiro Foto Alexandre Moraes

Em sentido pedagógico, a Cultura é o cultivo consciente das faculdades superiores do homem, consoante a clássica lição de Werner Jaeger, em “Paideia – A formação do homem grego”. Durante os séculos de história cultural, o acesso à obra de Platão sempre foi considerado um pressuposto indispensável para a formação integral do homem, na sua dimensão afetiva, moral e intelectual. O esforço para traduzi-lo, primeiro ao latim e depois às línguas vernáculas, tornou-se um imperativo civilizacional da mais alta importância pedagógica. Nesse sentido, os tradutores são enaltecidos pelo mérito de plasmarem em outro idioma a imaginação poética e o pensamento lógico-conceitual de um dos escritores mais criativos e profundos da história.

Até o empreendimento monumental de Carlos Alberto Nunes (1897-1990), o Brasil não tinha acesso ao corpus platonicum. A fim de contribuir para o engrandecimento cultural de seu povo, esse notável humanista, médico legista de profissão, dedicou a sua vida ao cultivo autodidata das letras clássicas, o grego e o latim, e das letras anglo-saxônicas, o inglês e o alemão, traduzindo a épica de Homero e Virgílio, o teatro de Shakespeare, Hebbel e Goethe e o drama filosófico de Platão.

A tradução platônica de Nunes é um marco cultural porque permite a atualização do pensamento platônico no sentido pedagógico de formação humanista do homem que reflete sobre a beleza, a bondade e a verdade. Permite a inserção no grande diálogo socrático que constitui a Filosofia, uma interlocução entre pessoas presentes a partir dos grandes livros que as orientam nas sendas da reflexão rigorosa e metódica como bem demonstrou G.Steiner, em A lição dos mestres.

Mas, para que uma obra cultural como a de Platão sobreviva à corrosão do tempo e atravesse os milênios, ela depende não apenas de tradutores, mas também de estudiosos que a divulguem e a expliquem e de editores que a ponham em circulação. Nesse contexto, ressalto o papel da Editora da UFPA e de Benedito Nunes, a quem o tio Nunes confiou o legado da tradução platônica.

O conjunto dos manuscritos generosamente cedidos à UFPA reúne, além de todos os diálogos, as cartas e os escritos apócrifos. Sob a coordenação do Benedito Nunes, quatorze volumes foram lançados entre 1973 e 1980, dos quais, três foram reeditados entre 1986 e 1988, além de outros sete, que voltaram a circular entre 2000 e 2007. A republicação completa da obra, em coleção independente, composta de dezoito volumes enriquecidos com o texto grego, foi iniciada em 2011, sob a coordenação de Benedito Nunes e Victor Sales Pinheiro, tendo Plínio Martins Filho, da Editora da USP, como editor convidado. Esse empreendimento editorial se tornou referência indispensável para os estudos universitários brasileiros no campo da filosofia, das ciências humanas e da cultura acadêmica em geral.

A atual reedição da tradução de Nunes, revisada e bilíngue, que agora compõe uma coleção própria, Diálogos de Platão, é parte de um trabalho de aperfeiçoamento das ações da Editora da UFPA, integrado a iniciativas mais amplas de qualificação dos projetos acadêmicos da Universidade Federal do Pará. Em 2011, vieram a público os três primeiros volumes da coleção: O Banquete, Fédon e Fedro. Dotadas de grande depuração literária, essas obras dramatizam momentos decisivos da vida de Sócrates, a celebração do amor e da poesia e seu enfrentamento com a morte. No ano de 2015, chegam aos leitores os volumes 5, 6, 7 e 8: Apologia de Sócrates e Críton; Laques e Eutífron; Cármides e Líside; e Primeiro Alcibíades e Segundo Alcibíades.

Em 2016, dois volumes são lançados, o 9, Hípias Maior e Menor, e o 4, República. Nos dois breves, porém eloquentes diálogos de Sócrates com Hípias, Platão usa de toda sua argúcia para contradizer o sofista, tratando dos desafiadores temas da beleza e da mentira. De maneira aparentemente despretensiosa, Sócrates introduz alguns dos temas centrais da sua teoria moral e do conhecimento, como a existência da forma do belo em si, fundamento das belezas sensíveis, tudo com um fino humor que confere comicidade a essas pérolas da juventude de Platão.

Com a edição da obra-prima de Platão, República, a Coleção alcança um de seus pontos altos, revelando um teatro filosófico que pensa por imagens, sobretudo a instigante alegoria da Caverna, que provoca indagações como: e se nossa vida social não passasse de um teatro de sombras, manipuladas pelos intelectuais sofistas que condicionam nossos pensamentos, palavras e ações? E se a alma estiver presa a um corpo que limita seu poder de conhecimento, contaminando-o com as percepções sensíveis? É possível libertar-se dos preconceitos sociais e das opiniões correntes acerca das virtudes e do bem? Platão nos ensina que há uma dimensão mais profunda da realidade a ser explorada. Precisamos estar intelectualmente vigilantes para discernir a aparência da realidade.

Serviço – Coleção Diálogos de Platão. Editora da UFPA.

Ed.135 - Fevereiro e Março de 2017

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